Mostrando postagens com marcador PELOS CAMINHOS DA POESIA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PELOS CAMINHOS DA POESIA. Mostrar todas as postagens

FERNANDO PESSOA




Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

FERNANDO PESSOA





Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

ADÉLIA PRADO DE FREITAS

Resultado de imagem para imagem de Adélia Prado



ADÉLIA PRADO




Adélia Luzia Prado de Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935), mais conhecida como Adélia Prado, é uma poetisa, professora, filósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo.
Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único. Em 1976, enviou o manuscrito de Bagagem para Affonso Romano de Sant'Anna, que assinanava uma coluna de crítica literária no Jornal do Brasil. Admirado, acabou por repassar os manuscritos a Carlos Drummond de Andrade, que incentivou a publicação do livro pela Editora Imago em artigo do mesmo periódico.
Professora por formação, ela exerceu o magistério durante 24 anos, até que a carreira de escritora tornou-se a atividade central. Em termos de literatura brasileira, o surgimento da escritora representou a revalorização do feminino nas letras e da mulher como ser pensante, tendo-se em conta que Adélia incorpora os papéis de intelectual e de mãe, esposa e dona-de-casa.

Biografia

Adélia Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, no dia 13 de dezembro de 1935, filha do ferroviário João do Prado Filho e de Ana Clotilde Corrêa. Leva uma vida pacata naquela cidade do interior: inicia seus estudos no Grupo Escolar Padre Matias Lobato e mora na rua Ceará.
No ano de 1950, falece sua mãe. Tal acontecimento faz com que a autora escreva seus primeiros versos. Nessa época conclui o curso ginasial no Ginásio Nossa Senhora do Sagrado Coração.

No ano seguinte, inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta, que conclui em 1953. Começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho em 1955.
Em 1958 casa-se, em Divinópolis, com José Assunção de Freitas, funcionário do Banco do Brasil S.A. Dessa união nasceriam cinco filhos: Eugênio (em 1959), Rubem (1961), Sarah (1962), Jordano (1963) e Ana Beatriz (1966).
Antes do nascimento da última filha, a escritora e o marido iniciam o curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis.

Em 1972, morre seu pai e, em 1973, forma-se em Filosofia. Nessa ocasião envia carta e originais de seus novos poemas ao poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna, que os submete à apreciação de Carlos Drummond de Andrade.

Em 1975, Drummond sugere a Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago, que publique o livro de Adélia, cujos poemas lhe pareciam "fenomenais". O poeta envia os originais ao editor daquele que viria a ser Bagagem. No dia 9 de outubro, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil chamando a atenção para o trabalho ainda inédito da escritora. O livro é lançado no Rio, em 1976, com a presença de Antônio Houaiss, Raquel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Juscelino Kubitschek, Affonso Romano de Sant'Anna, Nélida Piñon e Alphonsus de Guimaraens Filho, entre outros.

O ano de 1978 marca o lançamento de O coração disparado, que é agraciado com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.

Estréia em prosa no ano seguinte, com "Soltem os cachorros". Com o sucesso de sua carreira de escritora , vê-se obrigada a abandonar o magistério, após 24 anos de trabalho. Nesse período ensinou no Instituto Nossa Senhora do Sagrado Coração, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, Fundação Geraldo Corrêa — Hospital São João de Deus, Escola Estadual são Vicente e Escola Estadual Matias Cyprien, lecionando Educação Religiosa, Moral e Cívica, Filosofia da Educação, Relações Humanas e Introdução à Filosofia. Sua peça, O Clarão,um auto de natal escrito em parceria com Lázaro Barreto, é encenada em Divinópolis.

Em 1980, dirige o grupo teatral amador Cara e Coragem na montagem de O "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna. No ano seguinte, ainda sob sua direção, o grupo encenaria A Invasão, de Dias Gomes. Publica Cacos para um vitral. Lucy Ann Carter apresenta, no Departament of Comparative Literature, da Princeton University, o primeiro de uma série de estudos universitários sobre a obra de Adélia Prado.

Em 1981, lança Terra de Santa Cruz.
De 1983 a 1988, exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura de Divinópolis, a convite do prefeito Aristides Salgado dos Santos.
"Os componentes da banda" é publicado em 1984.
Participa, em 1985, em Portugal, de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, e em Havana, Cuba, do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América.
Fernanda Montenegro estréia, no Teatro Delfim - Rio de Janeiro, em 1987, o espetáculo Dona Doida: um interlúdio, baseado em textos de livros da autora. A montagem, sob a direção de Naum Alves de Souza, fez grande sucesso, tendo sido apresentada em diversos estados brasileiros e, também, nos EUA, Itália e Portugal.

Apresenta-se, em 1988, em Nova York, na Semana Brasileira de Poesia, evento promovido pelo Comitê Internacional pela Poesia. É publicado A faca no peito.
Participa, em Berlim, Alemanha, do Línea Colorada, um encontro entre escritores latino-americanos e alemães.

Em 1991 é publicada sua "Poesia Reunida".

Em 1993 volta à Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis, integrando a equipe de orientação pedagógica na gestão da secretária Teresinha Costa Rabelo.

Em 1994, após anos de silêncio poético, sem nenhuma palavra, nenhum verso, ressurge Adélia Prado com o livro "O homem da mão seca". Conta a autora que o livro foi iniciado em 1987, mas, depois de concluir o primeiro capítulo, foi acometida de uma crise de depressão, que a bloquearia literariamente por longo tempo. Disse que vê "a aridez como uma experiência necessária" e que "essa temporada no deserto" lhe fez bem. Nesse período, segundo afirmou, foi levada a procurar ajuda de um psiquiatra.

Em 1996 estréia no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte, a peça Duas horas da tarde no Brasil, texto adaptado da obra da autora por Kalluh Araújo e pela filha de Adélia, Ana Beatriz Prado.
São lançados Manuscritos de Felipa e Oráculos de maio. Participa, em maio, da série "O escritor por ele mesmo", no ISM-São Paulo. Em Belo Horizonte é apresentado, sob a direção de Rui Moreira, O sempre amor, espetáculo de dança de Teresa Ricco baseado em poemas da escritora.

Adélia costuma dizer que o cotidiano é a própria condição da literatura.

Morando na pequena Divinópolis, cidade com aproximadamente 200.000 habitantes, estão em sua prosa e em sua poesia temas recorrentes da vida de província, a moça que arruma a cozinha, a missa, um certo cheiro do mato, vizinhos, a gente de lá.

Cronologia

  • 1950: Escreve os primeiros versos, após a morte da mãe.
  • 1951: Inicia o curso de Magistério na Escola Normal Mário Casassanta.
  • 1953: Conclui o Magistério
  • 1955: Começa a lecionar no Ginásio Estadual Luiz de Mello Viana Sobrinho.
  • 1958: Casa-se com José Assunção de Freitas.
  • 1959: Nasce o primeiro filho, Eugênio
  • 1961: Nasce o filho Rubem
  • 1962: Nasce a filha Sarah
  • 1963: Nasce o filho Jordano
  • 1966: Nasce a filha Ana Beatriz
  • 1972: Morre o pai
  • 1973: Forma-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis e neste mesmo ano os poemas são lidos por Carlos Drummond de Andrade
  • 1975: Publica o primeiro livro Bagagem, após indicação de Drummond à Editora Imago. Em seguida, Drummond publica uma crônica no Jornal do Brasil destacando o trabalho ainda inédito de Adélia.
  • 1976: Lança Bagagem no Rio de Janeiro, com a presença de Juscelino Kubitschek, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant'Anna, Nélida Piñon, dentre outros.
  • 1978: Lança O Coração Disparado, com o qual recebe o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro.
  • 1979: Lança a primeira prosa, Soltem os Cachorros
  • 1980: Dirige a montagem de Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna pelo grupo de teatro amador Cara e Coragem.
  • 1981: Publica Cacos para um Vitral e Terra de Santa Cruz; neste mesmo ano é apresentado, no Departamento de Literatura Comparada da Universidade de Princeton, Estados Unidos, o primeiro de uma série de estudos sobre a obra.
  • 1983-1988: Exerce as funções de Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e da Cultura da cidade natal.
  • 1984: Publica Os Componentes da Banda
  • 1985: Partcipa de um programa de intercâmbio cultural entre autores brasileiros e portugueses, realizado em Portugal, e do II Encontro de Intelectuais pela Soberania dos Povos de Nossa América, em Cuba
  • 1987: Estréia do espetáculo Dona Doida: um Interlúdio, baseado em textos de livros da autora, encenado por Fernanda Montenegro, no Teatro Delfim, no Rio de Janeiro.
  • 1988: Publica A Faca no Peito e participação na Semana Brasileira de Poesia em Nova Iorque
  • 1991: Publica Poesia Reunida
  • 1994: Publica O Homem da Mão Seca
  • 1996: Estréia da peça Duas Horas da Tarde no Brasil, adaptada da obra da autora pela filha Ana Beatriz Prado e por Kalluh Araújo, no Teatro Sesi Minas, em Belo Horizonte
  • 1999: Publica Oráculos de Maio e Manuscritos de Felipa
  • 2000: Estréia do monólogo Dona da Casa, adaptação de José Rubens Siqueira para Manuscritos de Felipa
  • 2005: Publica Quero Minha Mãe
  • 2006: Morre o irmão, Frei Antonio do Prado, OFM
  • 2010: Lança A duração do dia
  • 2011: Lança Carmela Vai à Escola
  • 2014: É condecorada pelo governo brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural.

Silêncio poético

A literatura brasileira, além de ser fortemente marcada pela presença de Adélia Prado, também foi marcada por um período de silêncio poético no qual a escritora "emudeceu sua pena". Depois de O Homem da Mão Seca, de 1994, Adélia ficou cinco anos sem publicar um novo título, fase posteriormente explicada por ela mesma como "um período de desolação. São estados psíquicos que acontecem, trazendo o bloqueio, a aridez, o deserto". Oráculos de Maio, uma coletânea de poemas, e Manuscritos de Felipa, uma prosa curta, marcaram o retorno, ou a quebra do silêncio. Rubem Alves refere-se a esses silêncios em A Festa de Babette.

Influência

Citaram a autora como uma influência tanto o escritor brasileiro Rubem Alves como o moçambicano Mia Couto.

Lista de obras

No livro Cacos para um Vitral, Adélia Prado usa a metáfora do vitral para explicar a relação entre a vida e Deus.

Poesia

  • Bagagem, Imago - 1975
  • O Coração Disparado, Nova Fronteira - 1978
  • Terra de Santa Cruz, Nova Fronteira - 1981
  • O Pelicano, Rio de Janeiro - 1987
  • A Faca no Peito, Rocco - 1988
  • Oráculos de Maio, Siciliano - 1999
  • Louvação para uma Cor
  • A duração do dia, Record - 2010
  • Miserere, Record - 2013

Prosa

  • Solte os Cachorros, contos, Nova Fronteira - 1979
  • Cacos para um Vitral, Nova Fronteira - 1980
  • Os Componentes da Banda, Nova Fronteira 1987
  • O Homem da Mão Seca, Siciliano - 1990
  • Manuscritos de Filipa, Siciliano - 1994
  • Quero minha mãe - Record - 2000
  • Quando eu era pequena - 2009
  • Filandras, Record - 2018

Antologia

  • Mulheres & Mulheres, Nova Fronteira - 1978
  • Palavra de Mulher, Fontana - 1979
  • Contos Mineiros, Ática - 1984
  • Poesia Reunida, Siciliano - 1991 (Bagagem, O Coração Disparado, Terra de Santa Cruz, O Pelicano e A Faca no Peito).
  • Antologia da Poesia Brasileira, Embaixada do Brasil em Pequim - 1994.
  • Prosa Reunida, Siciliano - 1999

Balé

  • A Imagem Refletida - Ballet do Teatro Castro Alves - Salvador - Bahia - Direção Artística de Antônio Carlos Cardoso. Poema escrito especialmente para a composição homônima de Gil Jardim.
  • Cacos Para um Vitral - Rose Ballet Escola de Dança - Divinópolis - MG - Direção Artística: Mírian Lopes e Yan Lopes. Espetáculo baseado em referência dos poemas da escritora.
Em toda a obra de Adélia, fica evidente a fé católica.


Adélia Prado – Poemas

Adélia Prado – Poemas
AMOR FEINHO

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.

Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
( Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 97)

adelia-prado-rosto

Sedução (com vídeo)
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.
( Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 60)
Contribuição do poema e vídeo com voz de Rebeca dos Anjos.
*
  • Lembrança de Maio
*
AMOR VIOLETA
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
( Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)

*
Agora, ó José

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 34)
*
Para o Zé
Eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
te amo. Teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.
( Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 99)
*
Parâmetro
Deus é mais belo que eu.
E não é jovem.
Isto sim, é consolo.
( Adélia Prado )
adelia-prado-deus
Contribuição de Cibele para A Magia da Poesia.

Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
( Adélia Prado )
Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 11)
*
Impressionista
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
( Adélia Prado )
(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 36)
*
Pranto Para Comover Jonathan
Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.
( Adélia Prado )
*
Ensinamento
Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.
( Adélia Prado )
*
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
( Adélia Prado )
(Do livro: Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 25.)
*
Antes do nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
(Adélia Prado

MIGUEL TORGA




Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Miguel Torga
Miguel Torga, por Bottelho
Nacionalidade Portugal Portuguesa
Data de nascimento 12 de Agosto de 1907
Local de nascimento Vila Real, Portugal Portugal
Data de falecimento 17 de Janeiro de 1995 (87 anos)
Local de falecimento Coimbra, Portugal Portugal
Pseudónimo(s) Miguel Torga
Ocupação Poeta, Médico e Escritor
Cônjuge Andrée Crabbé
Memorial Miguel Torga (1907-2007), vizinho à ponte de Santa Clara, Coimbra, Portugal.
Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.

Biografia

Primeiros anos e educação

Nasceu na localidade de São Martinho de Anta, em Vila Real a 12 de Agosto de 1907. Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia Rocha e Maria da Conceição Barros.
Aqui nasceu Miguel Torga.
Entre São Martinho de Anta
e Constantim encontra-se o
santuário rupestre conhecido por
Fragas de Panóias.
Em 1917, aos dez anos, foi para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918 foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou Português, Geografia e História, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois comunicou ao pai que não seria padre.
Emigrou para o Brasil em 1920 , ainda com treze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café em Minas Gerais. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e concluir os estudos liceais.

Carreira profissional e literária

Em 1928, entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade. Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. Em 1930 rompe definitivamente com a revista Presença, junto com Edmundo Bettencourt e Branquinho da Fonseca , por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente. Nesse ano, publica o livro Rampa, lançando, no ano seguinte, Tributo e Pão Ázimo , e, em 1932, Abismo. Em colaboração com Branquinho da Fonseca, funda a revista Sinal, de efémera duração, e, em 1936, lança, junto com Albano Nogueira, o periódico Manifesto. Nesse ano, publica O Outro Livro de Job.
A obra de Torga traduz sua rebeldia contra as injustiças e seu inconformismo diante dos abusos de poder. Reflete sua origem aldeã, a experiência médica em contato com a gente pobre e ainda os cinco anos que passou no Brasil (dos 13 aos 18 anos de idade), período que deixou impresso em Traço de União (impressões de viagem, 1955) e em um personagem que lhe servia de alter-ego em A criação do mundo, obra de ficção em vários volumes, publicada entre 1937 e 1939. As críticas que fez aí ao franquismo resultaram em sua prisão (1940). Publica os livros A Terceira Voz em 1934, aonde pela primeira vez empregou o seu pseudónimo, Bichos em 1940, Contos da Montanha em 1941, Rua em 1942, O Sr. Ventura e Lamentação em 1943, Novos Contos da Montanha e Libertação em 1944, Vindima em 1945, Sinfonia em 1947, Nihil Sibi em 1948, Cântico do Homem em 1950, Pedras Lavradas em 1951, Poemas Ibéricos em 1952, e Orfeu Rebelde em 1958.
Crítico da praxe e das restantes tradições académicas, chama depreciativamente «farda» à capa e batina. Ama a cidade de Leiria, onde exerce a sua profissão de médico a partir de 1939 até 1942, onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933 concluiu a licenciatura em Medicina pela Universidade de Coimbra. Começou a exercer a profissão nas terras agrestes transmontanas, pano de fundo de grande parte da sua obra. Dividiu seu tempo entre a clínica de otorrinolaringologia e a literatura.
Após a Revolução dos Cravos que derrubou o Estado Novo em 1974, Torga surge na política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República (1979). Era, porém, avesso à agitação e à publicidade e manteve-se distante de movimentos políticos e literários.
Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros ao longo de seis décadas e foi várias vezes indicado para o Prémio Nobel da Literatura.

Casamento e últimos anos

Casa de Miguel Torga abre como espaço de memória em Vila Real
Casa de Miguel Torga,
em São Martinho de Anta,
Sabrosa, abre até ao Verão
como um espaço museológico
e de memória do escritor e médico
Casou-se com Andrée Crabbé em 1940, uma estudante belga que, enquanto aluna de Estudos Portugueses, com Vitorino Nemésio em Bruxelas, viera a Portugal fazer um curso de verão na Universidade de Coimbra. O casal teve uma filha, Clara Rocha, nascida a 3 de Outubro de 1955, e divorciada de Vasco Graça Moura.
Torga, sofrendo de cancro, publicou o seu último trabalho em 1993, vindo a falecer em Janeiro de 1995. A sua campa rasa em São Martinho de Anta tem uma torga plantada a seu lado, em honra ao poeta.

A origem do pseudónimo

Em 1934, aos 27 anos, Adolfo Correia Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já Torga é uma planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo.

A obra de Torga





A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a Divindade Transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/actuam como parecem/sem um disfarce que os mude).
Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras. E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, mal-grado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.

Poesia

  • 1928 - " Ansiedade " (fora do mercado)
  • 1930 - Rampa
  • 1931 - Abismo
  • 1936 - O outro livro de Job
  • 1943 - Lamentação
  • 1944 - Libertação
  • 1946 - Odes
  • 1948 - Nihil Sibi
  • 1950 - Cântico do Homem
  • 1952 - Alguns poemas ibéricos
  • 1954 - Penas do Purgatório
  • 1958 - Orfeu rebelde
  • 1962 - Câmara ardente
  • 1965 - Poemas ibéricos
  • 1997 - Poesia Completa, volume I
  • 2000 - Poesia Completa, volume II

Prosa

  • 1931 - Pão Ázimo
  • 1931 - Criação do Mundo
  • 1934 - A Terceira Voz
  • 1937 - Os Dois Primeiros Dias
  • 1938 - O Terceiro Dia da Criação do Mundo
  • 1939 - O Quarto Dia da Criação do Mundo
  • 1940 - Bichos
  • 1941 - Contos da Montanha "Diário I"
  • 1942 - Rua
  • 1943 - O Senhor Ventura "Diário II"
  • 1944 - Novos Contos da Montanha
  • 1945 - Vindima
  • 1946 - "Diário III"
  • 1949 - "Diário IV"
  • 1950 - Portugal'
  • 1951 - Pedras Lavradas "Diário V"
  • 1953 - "Diário VI"
  • 1956 - "Diário VII"
  • 1959 - "Diário VIII"
  • 1974 - O Quinto Dia da Criação do Mundo
  • 1976 - Fogo Preso
  • 1981 - O Sexto Dia da Criação do Mundo
  • 1982 - Fábula de Fábulas
  • 1999 - "Diário: Volumes IX a XVI"(1964-1993), Publicações Dom Quixote e Herdeiros de Miguel Torga, 2.ª edição integral, ISBN 972-20-1647-4
Indice dos volumes
  1. Diário IX (15-1-1960/20-9-1963)
  2. Diário X (5-10-1963/30-7-1968)
  3. Diário XI (2-8-1968/6-4-1973)
  4. Diário XII (17-5-1973/22-6-1977)
  5. Diário XIII (8-7-1977/20-5-1982)
  6. Diário XIV (21-5-1982/11-1-1987)
  7. Diário XV (20-02-1987/31-12-1989)
  8. Diário XVI (11-1-1990/10-12-1993)
O seu Diário (1941 - 1994), em 16 volumes, mistura poesia, contos, memórias, crítica social e reflexões. No último volume, diz: "Chego ao fim, perplexo diante de meu próprio enigma. Despeço-me do mundo a contemplar atônito e triste o espetáculo de um pobre Adão paradoxal, expulso da inocência sem culpa sem explicação."

Peças de teatro

  • 1941 - "Terra Firme" e "Mar"
  • 1947 - Sinfonia
  • 1949 - O Paraíso
  • 1950 - Portugal
  • 1955 - Traço de União

Ensaios e Discursos

Ensaios e Discursos, publicações Dom Quixote,Lisboa, 2001, ISBN 972-20-1681-4 , ‘’tomou por base, respectivamente,os textos da 6.ª edição de Portugal, Coimbra, 1993; da 2.ª edição revista de Traço de União, Coimbra, 1969; e da edição de Fogo Preso, Coimbra, 1989”, conforme nota do editor, p. 8.

Traduções

Seus livros foram traduzidos em diversos idiomas, algumas vezes publicados com um prefácio seu: espanhol, francês, inglês, alemão, chinês, japonês, croata, romeno, norueguês, sueco, holandês, búlgaro.

Prémios e homenagens

  • 1969 - Prémio do Diário de Notícias.
  • 1976 - Prémio de Poesia da XII Bienal de Internacional de Poesia de Knokke-Heist (Bélgica)
  • 1980 - Prémio Morgado de Mateus, com Carlos Drummond de Andrade
  • 1981 - Prémio Montaigne da Fundação Alemã F.V.S.
  • 1989 - Prêmio Luso-Brasileiro Luís de Camões
  • 1991 - Prémio Personalidade do Ano
  • 1992 - Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores
  • 1993 - Prémio da Crítica, consagrando a sua obra
  • 1995 - O seu nome foi colocado, em 3 de Maio de 1995, numa rua da Freguesia de Santa Maria, no Concelho de Lagos.

Bibliografia

  • FERRO, Silvestre Marchão. Vultos na Toponímia de Lagos. 2.ª. ed. Lagos: Câmara Municipal de Lagos, 2007. 358 pp. ISBN 972-8773-00-5.
  • TORGA, Miguel. Contos da Montanha. [S.l.: s.n.], 1996. ISBN 85-209-0720-2.

 Adolfo Rocha: Infância e Juventude | 1907 a 1933






Ampliar esta imagem
Começa logo porque fica no cimo de Portugal

Ampliar esta imagemAdolfo Correia da Rocha chegou a este mundo em 12 de Agosto de 1907 - “…nasci / Como um cabrito / Ou como um pé de milho”-, em S. Martinho de Anta(“ou das Antas, cujo nome atesta a sua ancestralidade megalítica”), aldeia transmontana no concelho de Sabrosa, tutelada pela Senhora da Azinheira, “a branquejar no alto da serra”, “empoleirada na sua fraga a chorar ainda o filho crucificado”.
“A sua terra é para ele como para uma planta: sítio de deitar raizes”.

“É debaixo do chão que me procuro.”


Ampliar esta imagemDesta terra sou feito
Fragas são os meus ossos,
Húmus a minha carne.

“S. Martinho de Anta não é um lugar onde, mas um lugar de onde…”,“…a terra onde nasci e de onde verdadeiramente nunca saí”.
“Este meu apego ao berço já não é tanto o mistério de raízes como um refrigério de cicatrizes”. “Tropeço em cada pedra, bebo em cada fonte, vou de anjo em cada procissão”.“O meu segredo é este: curo as chagas com pensos de terra”, na “beleza viril duma paisagem onde sempre me apetece parir ou morrer”.
“O destino” “plantou-me aqui e arrancou-me daqui. E nunca mais as raízes me seguraram bem em nenhuma terra.”
Ampliar esta imagem
A povoação é sobrançada por um votivo olmo negro, o negrilho, presente nas páginas autobiograficas de A Criação do Mundo, como herói da festa da árvore da quarta classe dos pequenos plantadores- “lá está, no largo do povo, alto e frondoso como o sonhámos então”- que Miguel Torga cantou como “mestre da inquietação serena”, único poeta da terra onde ambos haviam nascido (“Os meus versos são folhas dos seus ramos”) e por cujo declínio temeu ao findar os oitenta anos.
Ampliar esta imagem
Como José e Maria, seus irmãos, Adolfo era filho dos lavradores Francisco Correia Rocha - “bom no ofício de cavador” “que ganhava os dias a fazer o serviço de vendeiro”, “mordomo jurado da Senhora da Azinheira” e “omnipresença moral” - e Maria da Conceição Barros, “sensível ao colorido das coisas e ao sabor das palavras”, que trauteara para ele velhas loas, e com quem fez duetos em criança, muito antes de os unir o “entendimento tácito” e do poeta a dizer, na sua morte, “a eterna mulher entre as mulheres”.
O casal trabalhava a terra difícil (“não há desgraça maior dentro da pátria”) entre as fragas de xisto da Terra Quente e as de granito da Terra Fria, a nordeste, onde este novo Anteu , chegado da “terra de todos” com alma de poeta, sempre havia de buscar alento para lavrar os versos e a vida.

O baptismo, em 21 de Setembro de 1907 na Igreja Paroquial, confirmou o nome civil que lhe fora dado, ainda longe do “baptismo literário” que, aos 27 anos, a si mesmo ele se daria e mais tarde declinou como “destino impiedoso, impiedosamente imposto”.

A primeira comunhão ainda lhe foi recordada, no longínquo Abril de 1985 e no “silêncio da nave” da capela de Roalde, por alguém que a fizera ao mesmo tempo e “não esquecera o rapazinho que predicara aos companheiros no acto solene”.
Ampliar esta imagem
“O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos”, veio a ser remodelado em 1960.
Aos 75 anos particularizaria: “A casa paterna. A matriz sagrada da família.” “Chego e adeus solidão. Fico logo acompanhado de todos os meus penates. Presenças virtuais, mas agentes, estimulam-me o entendimento, pacificam-me o coração, corrigem-me a pauta dos versos”. “Os poetas mudam-se mas não mudam”.
Aos 80, diversamente, mas não com menos verdade, particularizou: “Desde que a deixei pela primeira vez” “passei a sentir-me nela, quando venho, como que emprestado, ao mesmo tempo eu e um outro, na “sensação estranha de ser eterno e provisório no mesmo instante, sem pé num chão onde nasci e não pude crescer, e sei que cresci”.
Ampliar esta imagem
"…a escola, ao fundo do povo, tinha mimosas à volta.

Mas a gramática e a tabuada aprendeu-as o pequeno Adolfo, entre 1913 e 1917, com o senhor Botelho, professor primário em S. Martinho de Anta, embora tenha sido na escola de Sabrosa o exame da quarta classe no qual ficou distinto.

O pai ofereceu-lhe um cavaquinho, comprado no Bazar dos Três Vinténs (“tanto dedilhei na zanguizarra que lhe rebentei as cordas”), e a família celebrou a distinção assistindo a um filme no animatógrafo de um conterrâneo , com o desgosto antecipado de não poder proporcionar-lhe o ensino secundário no liceu de Vila Real.
Ainda sem forças para revolver a terra foi mandado, aos dez anos, para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família que a própria mãe servira antes de casar.
O pequeno criado ganhava quinze tostões por mês e dormia num cubículo de campainha à cabeceira. Fardado de branco servia de porteiro, “moço de recados”, regava o jardim, “limpava o pó e polia os metais da escadaria nobre”, “atendia campainhas”, corria a cortina e mudava os cenários nas representações das crianças da família que montavam nele nas suas brincadeiras.
De “génio assomadiço” (“Vive pelos nervos”), agravado pelo espectáculo daquelas vidas diferentes e pela precoce intuição de estar a ser privado do direito à infância, o mar, então descoberto (“Quando pela primeira vez na meninice o vi em Leça , se não preteri o Marão nativo, ancorei-o em água salgada. E fiquei com duas referências cósmicas na vida”), entrava-lhe nos sonhos nocturnos e acenava-lhe com a ilusão de embarcar para o Brasil.

Ampliar esta imagem
Ao fim de um ano foi despedido, acusado de ingratidão pelos patrões que opunham, ao “asseio” e ao alimento facultados, a constante insubmissão do pequeno rapaz de onze anos sempre pronto a erguer-se contra as injustiças do que o rodeava .
Ampliar esta imagem
Ampliar esta imagemAmpliar esta imagemA família humilhada e a reprovação da aldeia, reforçaram o propósito paterno de o internar no Seminário de Lamego (transformado em quartel pela República e os seminaristas alojados em casas particulares) onde viveu “um dos anos cruciais”da sua vida, tendo melhorado os conhecimentos do português, da geografia, da história, aprendido o latim e ganhado familiaridade com os textos sagrados .
Regressado “com boas notas” nas férias de verão, o cabelo rapado à escovinha e a sobrepeliz de quando ajudava à missa, forjavam-lhe uma nova imagem, um novo respeito. Viu-se tratado então, em casa e na povoação, “como se fora outro” e bento, cercado por uma espécie “de redoma”, “isolado dos grandes e dos pequenos”. “Irremediavelmente sozinho no mundo”, fugia-lhe a infância “das palavras e dos gestos”.
Como “sem dar bem conta disso perdera a fé” – já seminal da confissão do “cristão do Sinai e não do Gólgota”, como Nemésio observou em 1939, ou, como ele próprio assinalou: ”…medularmente religioso faltava-me, contudo, a humildade necessária para acreditar” – no fim das férias comunicou ao pai que não seria padre (comutando assim o destino de “papa-hóstias” que ele ouvira referir ao mestre-escola ).

A grande aventura juvenil

Brasil - Ampliar esta imagem

Firme na sua resolução a família teve de optar pela última alternativa de o menino grangear o pão para a boca, no dia a dia, e assegurar o do futuro.

Foi então enviado, aos doze anos, para o Brasil ( Minas Gerais) a fim de trabalhar, no caso de vir a ser aceite, numa fazenda que pertencia a um tio e respondera ao apelo do irmão: “Quem tem os filhos que tome conta deles”.

Embarcado no paquete Arlanza, numa terceira de “barafunda e lágrimas”, por sobre um “deserto azul” visto do convés, desembarcou no Brasil de “ilhas, e morros, e casas e barcos, e gente a acenar” com uma “grande aflição” dentro dele. O tio, que afinal o aguardava com uma fotografia na mão, transportou-o directamente a um “armazém de roupas” para que trocasse o “fato de surrobeco das Pintas” e o “chapéu que também não prestava” -“Nem me reconhecia no preparo em que fiquei”-, rapidamente se apercebendo o pequeno emigrante que “daquele estranho e dono ao mesmo tempo”, que o olhava como a “bichinho que saiu da toca”, não havia compreensão a esperar.
Ampliar esta imagem
“Moleque do terreiro” na imensa Fazenda de Santa Cruz (em cujo interior operavam até duas estações de caminho de ferro) “nada do que aprendera em Agarez servia ali”.“Ele e os insultos da minha tia ensinaram-me, em pouco tempo, a obrigação de todos os dias”: “carregar o moinho, mungir as vacas”, “tratar dos porcos, ir buscar os cavalos da cocheira ao pasto, limpá-los e arreá-los, rachar lenha, varrer o pátio e atender a freguesia que vinha comprar fumo, cachaça, carne seca, feijão, ou trocar grão por fubá”; ir buscar o correio à povoação; “fazer a escrita da fazenda, verificar à noite se as portas e as janelas estavam bem fechadas.”
“Simples máquina de trabalho” “era o último a deitar-me e o primeiro a erguer-me”, “sem domingos nem dias santos” para que “a engrenagem funcionasse com perfeição”.
Ampliar esta imagem
Quatro anos decorridos o tio, porventura cansado das resistências familiares ao “moiro de trabalho” do seu sangue, “de têmpera igual à dele”, “capaz de entender o que significava uma bagada de suor”, e reconhecendo, por um qualquer obscuro instinto, que era de sentido superior a diferença de que o acusavam, matriculou-o no Ginásio de Leopoldina.
O adolescente esforçou-se por ser “o melhor da classe”, logo lhe sendo reconhecida a superioridade que o “afiançava ao futuro”, tal como primeiro prognosticara o professor Botelho. Com dezasseis anos “lia quanto [lhe] vinha ter à mão”, sabendo “de cor a biografia de todos os autores que figuravam na selecta”. Datam de então as suas primícias poéticas à maneira de Casimiro de Abreu, em breve aprendendo a detestar os “lirismos postiços”.
Ao mesmo tempo descobria o cinema e os heróis do mudo, Charlie Chaplin e Buster Keaton. A passagem pela Presença, com o seu culto pela sétima arte, havia de fazer-lhe juntar a estes primeiros heróis, alguns outros do cinema falado.
Mas o sentimento de que vivera, na “pequena cidade cheia de sol”, “o espaço que ia do desespero cego à esperança lúcida”, levou-o a reconhecer que a sua “inquietação já não cabia ali”.
Portugal - Ampliar esta imagem
Em 1925, na convicção de que ele havia de vir a ser “doutor em Coimbra”, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço.
Ampliar esta imagem
Regressou a Portugal acompanhado pelos familiares , “brasileiros torna-viagens”, viajando num outro paquete da Mala Real Inglesa, de nome Andes.O Segundo Dia da Criação do Mundo Deixava para trás o exílio de cinco anos onde “nem os ninhos eram iguais”, “os pássaros cantavam doutra maneira, os frutos tinham outro gosto e, onde menos se esperava, havia cobras disfarçadas, enormes, bonitas, sempre de cabeça no ar, à espera.”
“Crescera por fora e por dentro.” “Aprendera a objectivar a vida”, embora sempre tivesse sentido aquele chão como “fabuloso e mágico” e aonde (havia de reconhecê-lo) pudera ser “selvagem e natural”.
Na viagem, fartando “os olhos de letra redonda”, o futuro romancista e autor de contos descobria, com Machado de Assis, que “os autores procuravam criar símbolos perenes de realidades quotidianas”, através de “personagens que punham em movimento”.
O homem maduro havia de registar com distanciamento e quietação: “Um dos seus títulos de glória é ter passado a adolescência no Brasil”, “…o Brasil amei-o eu sempre, foi o meu segundo berço, sinto-o na memória, trago-o no pensamento”.
Ampliar esta imagem
O paquete atracou, no termo da viagem, em “Lisboa, pálida, espraiada” nascida “do mar, do Tejo e das colinas” datando talvez de então uma primeira intuição do viajante de que a pátria era uma “…nesga de terra/ Debruada de mar”.
Ampliar esta imagem
Os pais estranharam o sotaque, pediram-lhe que conversasse “à moda de cá” e, escutando à lareira o seu “monótono romance de sofrimentos”, choraram, não por ele, mas pelo “menino de doze anos” do qual se haviam separado um lustro antes. Sentia, então, que o cercava “de novo um muro de solidão”.

Passando a Coimbra, aluno interno com oito escolares muito mais novos - “Gulliver entre os pigmeus”- num Colégio particular, propriedade dum casal que ministrava o ensino das ciências, das línguas e a lição, natural, de existências possíveis “de afeição, de sensibilidade e de cultura”, foi ainda a solidão, mas “rodeada de livros” e ao som de Beethoven tocado num piano doméstico, que lhe fez ganhar o desafio de vencer, em dois anos, os cinco do primeiro e segundo ciclo do curso liceal de sete. Inscreveu-se, em seguida, no Liceu José Falcão onde completou o terceiro ciclo num só ano ficando apto a cursar a Universidade.
“Nunca tivera tempo para fitar demoradamente as coisas e os seres. E desforrava-me finalmente dessa fome profunda”. Compunha então sonetos, “arremedando” os de Antero, e já então para ele “a literatura relevava do sagrado”.
Ampliar esta imagem
Ampliar esta imagem
Em 1928, com 21 anos, inscreveu-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra : “…só na arte de Hipócrates poderia encontrar ao mesmo tempo uma profissão e um caminho humano paralelo ao que, sem diplomas de nenhuma espécie, tencionava seguir”.
No “artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais”, “a caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão”.
Ampliar esta imagem

Já estudante universitário na cidade “humanamente mais desenraizada de Portugal”, “praticamente isolado”, “alma penada a caminho das aulas ou a vaguear pelas enfermarias”, passou nesse ano “a letra de forma suspiros rimados” que intitulou Ansiedade, “uma pobre colectânea de sonetos e canções” que mereceu apenas “críticas reprovativas” e ele nunca reimprimiu.
Ampliar esta imagem
Residia então na república Estrela do Norte, “habitada por nortenhos rudes e aplicados”, e frequentava as tertúlias literárias e políticas da pastelaria Central, do café Arcádia e da Farmácia da Mariazinha.
Na pastelaria travou conhecimento com as personalidades presencistas; no café e na farmácia reunia-se com outros intelectuais de esquerda.
   
Ampliar esta imagem
A modificação de tom da voz poética foi despoletada pela dissecação do primeiro cadáver que lhe inspirou “Balada da Morgue” com a qual “verdadeiramente assinei pacto com Orfeu”. Os fenómenos da morte e da vida (o “ritual” e “a transcendência do parto” aureolavam o segundo) impunham-se-lhe como balizas da profissão.

Ampliar esta imagemAmpliar esta imagem Em 1929, com 22 anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema “Altitudes…”, discipular de Mário de Sá-Carneiro.
A revista, fundada em 1927 pelo “grupo literário avançado” de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, era bandeira “literária do grupo modernista” e era também, “bandeira libertária”. O escolar de Medicina abraçou então “com entusiasmo o movimento renovador” cujo alvo era “o autêntico e o profundo” do “novo tempo romanesco de Proust e de Gide ”, vivendo, em grupo, “uma euforia colectiva”.
Ampliar esta imagem“A presença castrense na vida administrativa do país”, em consequência da ditadura (instituída pelo golpe militar de 1926 que pusera fim ao governo constitucional), fazia-o “abominar a caserna e o espírito de casta”. Convocado pela inspecção foi sujeito a uma recruta severa na qual se já entrara “civil por temperamento”, saiu, também, “paisano por convicção”.
Ampliar esta imagem
Ampliar esta imagemIam aparecendo, entretanto, “heróicos e escanda-losos” os números da folha em que colaborava. Joyce, Chestov, Bergson, Fernão Mendes Pinto, Dostoiewsky, Cecília Meireles, Ribeiro Couto habitavam-na, à vez, no “esforço hercúleo de abalar as raizes de Coimbra petrificada na tradição” e de fazer “reviver a lírica palpitante e viril de Camões.”
Ampliar esta imagemTal intervenção já então a entendia Adolfo Rocha como o único modo de combate “numa pátria que é o cemitério da própria língua” e, à época, sem a compreensão de “que não há uma cultura ortodoxa”.
“Junqueiro sabia: a língua é uma pátria”, veio a escrever anos depois, talvez também ressoando nele a voz de Pessoa do Livro do Desassossego: “Minha pátria é a língua portuguesa”.
Ampliar esta imagem
Explodia, entretanto, a dissidência latente entre os colaboradores e os directores da Presença, por “razões de discordância estética e razões de liberdade humana”.
Liderada por Adolfo Rocha, solidarizavam-se Branquinho da Fonseca (sob a égide dos dois, saiu em Julho, um número de Sinal, publicação literária que o principal promotor veio, posteriormente, a reconhecer “um desastre. Era ingénuo e tumultuoso” e projectava a “minha solidão.”) e Edmundo de Bettencourt. Em folha volante, sob a forma de carta, os três assacavam aos mentores da revista, a intenção de fixar “um tipo único de liberdade”, “um caminho padrão”, e previam a sua “queda próxima num arcaísmo estético das escolas…”
Os “moldes estéticos” da revista e o “seu subjectivismo macerador” haviam feito enquistar o movimento.
A sua colaboração na Presença cessou com o texto em prosa : O Caminho do Meio, alegoria sobre o satanismo do Homem que pretendeu “criar o dogma da sua própria divindade”.
Foram seis as composições em verso de Adolfo Rocha publicadas na revista: “Altitudes”, “Baloiço” e “Inércia, “Remendo, Balada da Morgue” e “Compenetração”.
Ampliar esta imagem
Rampa, poemas veio a público, em Junho de 1930, com a chancela das Edições Presença, tendo decorrido, a propósito, uma troca de cartas entre Adolfo Rocha e Fernando Pessoa a quem o jovem poeta enviara um exemplar. O destinatário, embora lhe manifestasse apreço positivo, sugeria-lhe, a pertinência operativa duma “sensibilidade desintelectualizada” e duma “inteligência dessensibilizada”.
Ampliar esta imagemO ofertante, ofendido “na quarta dimensão”, reagira declarando ridículos os intelectuais e já passada a “era dos Mestres”. Na posse do “conceito de poesia” acremente reclamada ao correspondente, depreciava o culto da “consciência de si mesmo”, acusando como “postiça” a inspiração que a cultivasse.
Em carta a Gaspar Simões, Álvaro de Campos fora responsabilizado pela primeira missiva. Mas, sob o lema dos estóicos, patere et abstine, fora Pessoa ele-mesmo que respondera e foi ainda ele quem fez cessar ali a contenda.
Em 1931, contista em Pão Ázimo e poeta em Tributo, Adolfo Rocha já aparecia a público em edição de autor, como aconteceu com Abismo, no ano seguinte, e como aconteceria pela vida fora.
Mas o “campónio de Agarez” e o “poeta do absoluto” degladiavam-se dentro dele.
Ampliar esta imagem
No início de 1933 Adolph Hitler, a breve prazo líder do Terceiro Reich, era nomeado Chanceler. Em Portugal o regime de Partido Único ou União Nacional (instituída três anos antes) fundou o Estado Novo, fez ratificar uma Constituição corporativa, criou a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), proibiu as oposições
e criou o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), dirigido por António Ferro, ideólogo do regime e homem de cultura.
 Ampliar esta imagem 
Ampliar esta imagem
Concluído o curso universitário em 8 de Dezembro de 1933, “na hora em que esperava merecer da vida a alegria íntima do triunfo”, era “a imagem dum homem aterrado” que o espelho lhe devolvia. Colava-se-lhe, talvez, o único verso que ele recuperou do volume Ansiedade, cinquenta anos mais tarde, inscrevendo-o como abertura da Antologia Poética de 1981: “Sinto o medo do avesso”( quiçá o “terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai”, como ele anotou no dia da formatura).
Regressado a S. Martinho de Anta a hostilidade de uns e o precavimento de outros erguiam-se contra o novo médico, com “fama de revolucionário” e labéu de ateísmo, que lograra transcender a “terrosa condição da família”. Esta, sentia ele então, deixara há muito de o compreender. “A partida de casa aos dez anos fora catastrófica.”: “perdera definitivamente o lugar privilegiado no seio da tribo. Estava sem estar”, julgando, então, que já não era dali.
“Hostilizado nos jornais pelos antigos companheiros” ainda devido ao “infecto caso da cisão”, longe das livrarias e dos amigos”, dos cinemas e dos cafés, mudou-se, para Vila Nova, a meio do ano de 1934, concelho de Miranda do Corvo, distrito de Coimbra, para exercer o seu munus de clínico geral, excêntrico ao apertado torno familiar e conterrâneo.
As circunstâncias colocavam-no , de novo, num “ Portugal velho e rotineiro, de senhores e servos” cuja aspereza ele bem conhecia. Mas o lugar permitia-lhe saborear a “pacatez da vida aldeã”, apesar das maquinações de classe dos colegas locais e das “visitas meteóricas a Coimbra duas vezes por semana”.

Fonte: A Voz do Chão



Quase um Poema de Amor

Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
Lusitana
Tem essa humana
Graça
Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça
Bebedeira.

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num íntimo pudor,
— Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga, in 'Diário V'

ANTÔNIO ALEIXO

António Aleixo


  
 
 
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Estátua de António Aleixo
em Loulé, em frente ao
Bar "Calcinha", frequentado em
vida pelo poeta

António Fernandes Aleixo OM (Vila Real de Santo António, 18 de fevereiro de 1899 — Loulé, 16 de novembro de 1949) foi um poeta popular português.

Biografia

Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo, famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos, António Aleixo também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França.
De regresso ao seu país natal, estabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, actividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de "poeta-cauteleiro".
Faleceu por conta de uma tuberculose, a 16 de novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.
Município de Vila Real de Santo António

Estilo literário


        
Poeta possuidor de uma rara espontaneidade, de um apurado sentido filosófico e notável pela «capacidade de expressão sintética de conceitos com conteúdo de pensamento moral», António Aleixo tinha por motivos de inspiração desde as brincadeiras dirigidas aos amigos até à crítica sofrida das injustiças da vida. É notável em sua poesia a expressão concisa e original de uma "amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida".
A sua conhecida obra poética é uma parte mínima de um vasto repertório literário. O poeta, que escrevia sempre usando a métrica mais comum na língua portuguesa (heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como "quadras" ou "trovas"), nunca teve a preocupação de registar suas composições. Foi o trabalho de Joaquim de Magalhães, que se dedicou a compilar os versos que eram ditados pelo poeta no intuito de compor o primeiro volume de suas poesias (Quando Começo a Cantar), com o posterior registo do próprio poeta tendo o incentivo daquele mesmo professor, a obra de António Aleixo adquiriu algum trabalho documentado. Antes de Magalhães, contudo, alguns amigos do poeta lançaram folhetos avulsos com quadras por ele compostas, mais no intuito, à época, de angariar algum dinheiro que ajudasse o poeta na sua situação de miséria que com a intenção maior de permanência da obra na forma escrita.
Estudiosos de António Aleixo ainda conjugam esforços no sentido de reunir o seu espólio, que ainda se encontra fragmentado por vários pontos do Algarve, algum dele já localizado. Sabe-se também que vários cadernos seus de poesia, foram cremados como meio de defesa contra o vírus infeccioso da doença que o vitimou, sem dúvida, um «sacrifício» impensado, levado a cabo pelo desconhecimento de seus vizinhos. Foi esta uma perda irreparável de um património insubstituível no vasto mundo da literatura portuguesa.



A opinião pública e reconhecidos amigos


A partir da descoberta de Joaquim de Magalhães, o grande responsável por "passar a limpo" e registar a obra do poeta, António Aleixo passou a ser apreciado por inúmeras figuras da sociedade e do meio cultural algarvio. Também é digno de registo José Rosa Madeira, que o protegeu, divulgou e coleccionou os seus escritos, contribuindo no lançamento do primeiro livro, "Quando Começo a Cantar" (1943), editado pelo Círculo Cultural do Algarve.
A opinião pública aceitou a primeira obra de António Aleixo com bom agrado, tendo sido bem acolhida pela crítica. Com uma tiragem de cerca de 1.100 exemplares, o livro esgotou-se em poucos dias, o que proporcionou ao Poeta Aleixo uma pequena melhoria de vida, contudo ensombrada pela morte de uma filha sua, com tuberculose. Desta mesma doença viria o poeta a sofrer pelos tratamentos que a vida lhe foi impondo, tendo de ser internado no Hospital – Sanatório dos Covões, em Coimbra, a 28 de junho de 1943.
Em Coimbra começa uma nova era para o poeta que descobre novas amizades e deleita-se com novos admiradores, que reconhecem o seu talento, de destacar o Dr. Armando Gonçalves, o escritor Miguel Torga, e António Santos (Tóssan), artista plástico e autor da mais conhecida imagem do poeta algarvio, amigo do poeta que nunca o desamparou nas horas difíceis. Os seus últimos anos de vida foram passados, ora no sanatório em Coimbra, ora no Algarve, em Loulé.
A 27 de maio de 1944 recebeu o grau de Oficial da Ordem do Mérito.

Homenagem e Consagração

Em homenagem ao poeta popular e à sua obra, muitos distritos portugueses atribuíram o seu nome a ruas e avenidas e até a diversas escolas, como:
  • O Liceu de Portimão passou a chamar-se Escola Secundária Poeta António Aleixo.
O Liceu de Portimão foi criado pelo Decreto-Lei n.º 21922, de 29 de Novembro de 1932, após muitas movimentações e grande pressão por parte das forças políticas e institucionais da cidade, ficando o mesmo designado por Liceu Municipal Infante de Sagres
  • Em Coimbra - Na zona de Sta. Clara e em Brasfemes, (arredores).
  • Em Paço de Arcos junto da Escola Náutica também existe uma rua com o nome de António Aleixo.
  • Em Odivelas foi dado o nome do poeta a um largo.
  • Em Setúbal, o nome do poeta foi também atribuído a uma rua de um bairro da cidade, situado na zona do Centro Hospitalar.
  • Em Camarate no Bairro São José
  • Em Albufeira, junto às praias no Algarve, e em muitas ruas espalhadas por esse Portugal fora e não só, pode-se ver e ouvir o nome do Poeta do Povo imortalizado em alguma placa.
  • Há alguns anos também passou a existir a «Fundação António Aleixo» com sede em Loulé e que já usufrui do Estatuto de Utilidade Pública, o que lhe permite atribuir bolsas de estudo aos mais carenciados, facto que deve ser encarado como bastante positivo.
  • O reconhecimento a este poeta tem-se repercutido noutros países de língua portuguesa, nos quais o nome de Aleixo foi imortalizado em instituições como, por exemplo, a Escola Poeta António Aleixo no Liceu Católico de São Paulo no Brasil.

Obra





António Fernandes Aleixo está hoje, bem enraizado e presente. As suas obras foram apresentadas na televisão, rádio e demais sistemas de informação, os seus versos incluídos em diversas antologias, o seu nome figura na história da literatura de língua portuguesa, é patrono de instituições e grupos político-culturais, existem medalhas cunhadas e monumentos erigidos em sua honra. Da sua autoria estão publicadas as seguintes obras:
  • Quando começou a cantar – (1943);
  • Intencionais – (1945);
  • Auto da vida e da morte – (1948);
  • Auto do curandeiro – (1949);
  • Auto do Ti Jaquim - incompleto (1969);
  • Este livro que vos deixo – (1969) - reunião de toda a obra do poeta;
  • Inéditos – (1979); tendo sido, estes quatro últimos, publicados postumamente.

Referências

  1. http://www.ordens.presidencia.pt/?idc=153&list=1

Bibliografia

  • ALEIXO, António. Este livro que vos deixo.... Loulé: Edição de Vitalino Martins Aleixo,1983. A colectânea traz os textos de apresentação originais dos diversos livros do poeta.
  • BARRENTO, João. António Aleixo - "A dor também faz cantar...". Lisboa: Apenas Livros, 2003.
  • DIAS, Graça Silva. António Aleixo - problemas de uma cultura popular. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1977.
  • DUARTE, António de Sousa. António Aleixo - o poeta do povo. Lisboa: Âncora, 1999.
  • MAGALHÃES, Joaquim de. Ao encontro de António Aleixo. (Cadernos F.A.O.J.). Lisboa: Secretaria de Estado da Juventude e Desportos, s.d.
  • MARTINS, J. H. Borges. António Aleixo - pastor de versos. Angra do Heroísmo: Edição da Cooperativa Semente, 1978.
 Centro Cultural António Aleixo



centro cultural

Erguendo-se sensivelmente "a meio" da Rua Teófilo de Braga, principal artéria da Zona Histórica da Cidade, conhecida simplesmente como "a Avenida" por boa parte da população vilarealense, o edifício começou por albergar o quartel militar onde se concentrava a tropa estacionada na nova vila fronteiriça.
Com a concentração em Tavira das tropas estacionadas no Sotavento algarvio, o edifício foi transformado em mercado da verdura. Nos pequenos espaços existentes nos lados levante poente da grande área central onde estava instalado o mercado da verdura, funcionavam talhos e padarias. A "Praça do Peixe" estava então localizada na Avenida da República, na Zona Ribeirinha.
Com a passagem da "Praça" para o limite poente da cidade, na década de 80, surgiu a ideia de dar ao espaço uma outra utilidade, consentânea com uma zona da cidade que se pretendia nobre e animada. Daí que a ideia de o transformar em local de realização de eventos culturais acabasse por ser a que acabaria por ganhar corpo.
O Centro Cultural António Aleixo acabaria por abrir ao público em 1998. A designação deve-se ao poeta popular António Aleixo, nascido em Vila Real de Santo António em 1899 e falecido em Loulé, em 1949.
O espaço é hoje indissociável da vida cultural da cidade, com capacidade para acolher eventos diversificados, desde exposições, a espectáculos nas mais variadas áreas. Aí funciona também, num dos espaços situados no seu lado poente, o Espaço Internet da Cidade.