“Centro direita acha normal um país pequenino”. Bloco quer lutar pela dignidade de quem trabalha


 
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Catarina Martins em Castelo de Paiva

Bloco de Esquerda

 

 

 

 


Coordenadora do Bloco Esquerda Catarina Martins diz que nas eleições vão estar em confronto duas visões para o país. Catarina Martins quer lugar pela dignidade de quem trabalha e defende limitação do trabalho por turnos.

A coordenadora do BE prometeu lutar pela “dignidade de quem trabalha” e a “combater desigualdades”, contra a visão “do centro e da direita”, que “acha normal um país pequenino” e diz sempre sim a Bruxelas.

“Nestas eleições [legislativas, em 06 de outubro de 2019] vão estar em disputa duas visões para o país. Uma é a do centro e da direita, que acha normal um país pequenino, sempre a dizer que sim a tudo o que for ortodoxia de Bruxelas e onde é normal um administrador ganhar num mês o que um trabalhar precisa de dez ou mais anos para ganhar”, disse Catarina Martins, no Porto este domingo, durante a apresentação do programa eleitoral para as áreas do Trabalho e da Segurança Social, e da lista de deputados pelo distrito que encabeça.

A outra visão, explicou, “é a que o BE propõe, que se centra na dignidade de quem trabalha, de uma economia para toda a gente, capaz de responder às alterações climáticas, de ir onde é preciso ir sem deixar ninguém para trás”. “Este programa assegura a continuidade do combate à austeridade, empenha-se no combate às desigualdades e põe no centro a dignidade de quem trabalha”, afirmou.

Entre as prioridades do BE para estas áreas estão o combate a recentes formas de precariedade, através de uma “nova lei de combate ao trabalho temporário e ao falso ‘outsourcing’, (terceirização) e levar as plataformas digitais a assumir encargos laborais ou de proteção social. Na próxima legislatura, o BE pretende insistir nas 35 horas de trabalho semanais para todos e em colocar, na lei, o “dever de desconexão da empresa para impedir prolongamento informal dos horários”.

 Para o BE, a redução do horário de trabalho para as 35 horas “permitiria criar mais de 200 mil postos de trabalho”. Relativamente à Segurança Social, Catarina Martins quer uma “rede pública de residências” para idosos e uma “rede de cuidados continuados” que “respeitem a autonomia das pessoas”. A coordenadora mostrou em palco “o único lar da Segurança Social” do país, situado no Porto. “Dois terços [do edifício] está devoluto. O que fazer com este tão grande património do Estado? Uma unidade de cuidados continuados e uma residência apoiada. Precisamos da ousadia da resposta pública no apoio”, disse
 
Quanto ao “falso outsourcing”, o BE defende uma “limitação forte dos fundamentos e da duração do trabalho temporário”, para um “máximo de seis meses” e a “aplicação das regras e das convenções coletivas dos trabalhadores da empresa aos trabalhadores em outsourcing”.

A coordenadora notou também que está “tudo por fazer para aumentar o salário mínimo nacional”, defendendo os 650 euros em janeiro de 2020, nos setores público e privado, e alertando para a legislação laboral que o PS “se prepara para aprovar, com o PSD”. “Puxar pela igualdade de género”, dar resposta aos “novos desafios no combate à precariedade” e o “direito à família” são algumas das bases do programa laboral do BE para as legislativas de outubro.

Catarina Martins pretende “acabar com duplo corte do fator de sustentabilidade” nas reformas antecipadas, porque “aos 60 anos, quem já trabalhou 40 anos deve ter direito a reforma”.
A responsável manifestou-se muito “preocupada com o trabalho por turnos”, algo feito por 700 mil pessoas em Portugal. “Está provado que faz mal à saúde. É preciso limitar o trabalho por turno. A laboração não deve ser contínua para evitar má gestão. Os turnos têm de ter regras e os trabalhadores devem ter uma palavra a dizer”, observou.
A coordenadora sustentou ainda que o Complemento Solidário para Idosos “não deve ter em conta rendimento dos filhos” dos beneficiários. Quanto à lista de candidatos do BE pelo Porto, foi apresentada pelo número dois, José Soeiro, tendo em terceiro lugar Luís Monteiro e, em quarto, Maria Manuel Rola.

Com cinco deputados pelo distrito do Porto na atual legislatura, o BE apresenta em quinto lugar uma novidade: Bruno Maia. Seguem-se Fernando Barbosa, Conceição Sereno, Adriano Campos e Cláudia Braga.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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O S-400 PIORA AS RELAÇÕES DA TURQUIA COM OS ESTADOS UNIDOS


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O Ministério da Defesa da Rússia publicou um vídeo do despache do primeiro lote de componentes dos sistemas de defesa antiaérea S-400 para Turquia.
As imagens mostram como os componentes do S-400 são carregados no avião. Como relatado anteriormente, dois aviões russos com o primeiro lote de componentes de sistemas russos aterrissaram na Base Aérea Murted, na província de Ancara.

Segundo acordo concluído em 2017, a Rússia fornecerá à Turquia quatro divisões de S-400 por 2,5 bilhões de dólares, uma parte das quais será paga pelo cliente e a outra parte à custa de empréstimo russo.

Piora de relações com EUA

A compra dos novíssimos sistemas russos de defesa aérea S-400 provocou escândalo internacional entre a Turquia e os EUA, que exigiram o abandono dos turcos do acordo de compra dos sistemas russos, chegando até mesmo a oferecerem seus sistemas de mísseis Patriot em troca.
Vale destacar que Washington não excluiu a possibilidade de adiar ou até mesmo cancelar a venda de caças F-35 a Ancara, que se recusou a fazer concessões.
Superioridade do S-400

S-400 Triumph é projetado para destruir aeronaves, mísseis de cruzeiro e balísticos e alvos terrestres. Com alcance de 400 quilômetros, os sistemas de defesa antiaérea S-400 são capazes de atingir alvos a 30 quilômetros de altitude

MIGUEL RIVOTTI

Escolha de Portugal pelo KC-390 é opção acertada, diz especialista

Apresentação do avião KC-390 no Brasil, 2014 (foto de arquivo)


© Foto: Tereza Sobreira/ Ministério da Defesa do Brasil via Wikimedia
Defesa

O Governo de Portugal anunciou na quinta-feira (12) um pedido por cinco aviões do modelo KC-390 da Embraer como parte do processo de modernização das capacidades da Força Aérea Portuguesa.

A solicitação serve para apoiar as operações das Forças Armadas de Portugal e as entregas estão programadas para começar em 2023.

Para Cláudio Lucchesi, editor da revista Asas e especialista em aviação, Portugal acertou na compra do KC-390 da Embraer.

"O KC-390 é uma aeronave totalmente moderna cujo o conceito, a concepção, o projeto fez utilização das mais recentes tecnologias disponíveis. Então é uma aeronave mais capaz, mais moderna e pode se imaginar que tem um longo caminho a frente no sentido de poder ir sendo paulatinamente aperfeiçoada, melhorada e assumir outras funções além das que já é capaz de fazer. É uma escolha bastante acertada", disse à Sputnik Brasil.

O KC-390 é capaz de realizar diversas missões militares e civis, incluindo apoio humanitário, evacuação médica, busca e salvamento e combate a incêndios florestais e possui também capacidades de transporte e lançamento de carga e tropas.

"Se a gente observar no cenário atual, não existe nenhuma aeronave de projeto novo exatamente da categoria do KC-390, os transportes militares de projetos novos, razoavelmente recentes, como o Airbus A400M, o C17, são aeronaves maiores do que o KC-390. Nesse momento são poucos os rivais em termos de modernidade de projeto ao KC-390", disse Cláudio Lucchesi.

Portugal é o maior parceiro internacional do Programa KC-390. Por isso, para Cláudio Lucchesi, a notícia não é nenhuma surpresa.

"Essa decisão já era esperada, já havia ocorrido anteriormente uma pré-seleção do KC-390 pela Força Aérea Portuguesa. É também importante observar que existe uma empresa área em Portugal importante, que é a OGMA, que 65% do controle acionário é pertencente ao grupo Embraer", completou.

A PALOP EM CONSTRUÇÃO

Por que a Lava Jato teme o Congresso Nacional?

Reprodução/Internet
Brasil
 
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O procurador da República e coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, declinou um convite do Congresso Nacional para falar, nesta terça-feira, sobre as polêmicas mensagens vazadas do seu aplicativo Telegram, levantando questionamentos sobre o porquê do receio em explicar as conversas mantidas com o então juiz Sergio Moro no âmbito da operação.

Há um mês, o site The Intercept Brasil, seguido por mídias parceiras, começou a divulgar uma série de mensagens vazadas de conversas mantidas pelos procuradores da Lava Jato com o, agora, ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, Sergio Moro, do período em que ele era o juiz responsável pelos casos em primeira instância da operação, na 3.ª Vara Criminal Federal de Curitiba. Os conteúdos publicados revelaram uma cooperação íntima entre as duas partes, levando parte da opinião pública e das autoridades a suspeitar da imparcialidade do magistrado e da lisura dos processos, entre os quais destacam-se os do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, desde abril de 2018, cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro na capital paranaense.

De acordo com o cientista político André Rodrigues, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), a postura de Deltan Dallagnol, que, ao contrário de Moro, se recusou a prestar esclarecimentos ao parlamento — o ministro compareceu a comissões do Senado e da Câmara dos Deputados para falar sobre o tema —, diante de um pedido feito pelo legislativo federal demonstra um desdém pelas instituições da República. Para Rodrigues, o fato de Dallagnol ser um procurador no foco de uma das maiores investigações já feitas pelo Ministério Público Federal, e que hoje se encontra no centro do debate público, indica que seria, no mínimo, razoável, que ele comparecesse ao Congresso para explicar os recentes escândalos envolvendo seu nome e de seus colegas na Lava Jato.

"Na verdade, o Deltan é um procurador muito pouco zeloso com as instituições da República. Fica visível, no conteúdo das mensagens, que, ali, está em jogo um empreendimento político-ideológico no qual o funcionamento das instituições, as prerrogativas, os mandados, a legalidade da atuação estão em segundo plano", disse o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.

​O professor acredita que as mensagens vazadas pelo Intercept deixam muito nítida a atuação profundamente política de membros do MPF, com o objetivo de pautar a agenda pública. Segundo ele, considerando-se esse fato, é possível dizer que é até coerente a recusa de Dallagnol em comparecer ao Congresso para falar sobre esse assunto.

"Eles acreditam realmente que são portadores de uma missão ideológica de um saneamento da República, baseada nos termos deles mesmos", afirmou.   

Clarisse Gurgel, cientista política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), avalia que, ao mesmo tempo em que o Brasil traz, a cada dia, um rol de notícias ruins, as atuais dinâmicas da sociedade têm configurado também um espaço de muito aprendizado. Comentando o episódio envolvendo o coordenador da força-tarefa da Lava Jato e os parlamentares que o convocaram para prestar esclarecimentos, a analista afirma que a posição de Dallagnol chama a atenção para "o lugar que a política possui num Estado democrático de direito, numa democracia burguesa", onde, em meio a falhas do executivo e do legislativo em atender a demandas sociais, seja do capital ou do trabalho, o judiciário começa a ganhar força e conteúdo político.

"A judicialização da política é a expressão mais imediata disso", disse ela à Sputnik, descrevendo esse cenário como "mais um processo de americanização do Brasil", já que isso teria uma "influência direta dos Estados Unidos".

Esse contexto de judicialização da política, segundo a pesquisadora, pode ser entendido como um meio de resolver através da "capacidade de influência na técnica burocrática de poder direta (judiciário)" aquilo que não é resolvido na "luta".

"O Brasil foi caminhando para uma sociedade em que tem uma casta que ocupa o judiciário e que começa a fazer uso desse poder técnico para compensar as derrotas políticas. E aí surge Moro. E esse caráter político do Moro é tão grande que um canto da sereia de ocupar um ministério o seduziu. E não à toa. A direita também sabe identificar seus quadros e identificou o Moro como um grande quadro", argumenta Gurgel, explicando que a transformação do ex-juiz
em ministro tornou evidente algo que estava velado.

​Para o procurador federal Sérgio Sant'Anna, professor de Direito Constitucional da Universidade Cândido Mendes, também não há dúvidas de que, querendo ou não, a Lava Jato tem tido uma atuação política ao longo dos últimos anos, com as questões ligadas a esse campo gerando muito mais repercussões do que a natureza técnica. Em sua opinião, a relação da equipe de Dallagnol com o então juiz Sergio Moro demonstra claramente isso, e os parlamentares, dentro da sua área política, partidária, têm todo o direito de pedir esclarecimentos aos procuradores e demais envolvidos nos recentes escândalos no âmbito da operação.

De acordo com Sant'Anna, ao contrário do que afirmam Moro e aliados, a parceria entre juiz e procuradores evidenciada pelos vazamentos do Intercept não representaria uma relação normal, sem gravidade. Ele acredita que o caso deve ser apurado com todo o rigor da lei, para que as devidas medidas sejam tomadas.

"A OAB [Ordem dos Advogados do Brasil] emitiu uma nota dizendo que as questões são extremamente graves, são sérias, e colocando, ao final, que o próprio juiz [atualmente ministro] Sergio Moro deveria ser afastado. E os procuradores também", declarou o especialista à Sputnik Brasil. "Claro que, dentro de um Estado democrático de direito, você tem que ter o devido processo legal, tem que ter o contraditório, a ampla defesa, e ninguém está fazendo nenhum pré-julgamento. Porque isso seria um absurdo. Agora, pela gravidade das denúncias, eu acho que elas têm que ser apuradas com todo o rigor das instituições."

AFINAL QUEM EXPULSOU OS PORTUGUESES DA BAHÍA FORAM OS FRANCESES, 0S INGLGLESES OU OS BAIANOS?


Pouco conhecida dos brasileiros, a luta para livrar o país de Portugal deixou um legado de heróis para enriquecer o Panteão da Pátria e da Liberdade, em Brasília

Liliana Peixinho

Independência do Brasil, quando Dom Pedro I desembainhou sua espada, às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, para cortar o cordão umbilical que ligava o país à Corte lusitana como se tudo tivesse ocorrido de forma pacífica, a verdade, contudo, é que a separação de Portugal foi um processo histórico doloroso, marcado por revoltas e por uma guerra só encerrada no dia 2 de julho de 1823, quando foram expulsas do país as tropas portuguesas que haviam se aglutinado em Salvador para resistir às pretensões separatistas da Colônia.




Poucos brasileiros compreendem a importância que os baianos dão ao dia 2 de julho. É preciso voltar no tempo para descortinar os acontecimentos da época e colocar em seu devido lugar a importância da participação do povo no processo que consolidaria o país como nação e que daria início à construção de nossa nacionalidade. Sob este aspecto, pode‑se dizer que uma parte da história de nossa Independência, à margem da vida e das decisões palacianas, foi escrita com sangue, suor e lágrimas. E não faltaram mártires e heróis naqueles episódios.

CLIMA DE ÓDIO

A situação na Bahia era explosiva havia algum tempo. Duas décadas antes do Grito do Ipiranga, os baianos viveram um episódio traumático. Intelectuais, pequenos comerciantes, escravos e ex‑escravos articulavam uma insurreição contra o jugo de Portugal. O movimento, conhecido como a Conjuração Baiana, ou Revolta dos Alfaiates, foi abortado e várias pessoas acabaram presas, algumas delas expulsas do país. A mando do governador da província, militares portugueses enforcaram, na Praça da Piedade, em Salvador, os revoltosos Lucas Dantas, Manuel Faustino, João de Deus e Luís Gonzaga, todos negros. A repressão violenta deixou uma ferida que se abriria anos depois.

Diferentemente do que aconteceu em São Paulo, Rio e Minas, a Proclamação da Independência não produziu efeitos imediatos em províncias como a Cisplatina (atual Uruguai), Maranhão, Grão‑Pará e Bahia. Ao contrário, a opressão dos militares portugueses aumentou e foi preciso lutar para expulsá‑los do país

 “Na Bahia, uma classe mercantil pujante conseguiu manter, em grande parte às suas expensas, tropas portuguesas fiéis ao governo de Lisboa. Para isso se fez uma guerra que, ao final, incorporou a Cidade da Bahia ao Império Brasileiro”, conta o professor Sérgio Armando Guerra Filho, mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (UFBa) e autor da dissertação

O povo e a guerra: participação popular nas lutas pela Independência na Bahia (1822‑23).

De fato, grandes comerciantes, quase todos lusitanos, e latifundiários brasileiros donos de extensas terras na província baiana, onde produziam açúcar e tabaco à custa do trabalho escravo, temiam os movimentos emancipação, que àquela altura defendiam ideias progressistas, como a autonomia política do Brasil, a implantação da República, o fim da escravidão e a abolição dos privilégios sociais. O clima era de ódio na província. Populares em bandos atacavam os militares portugueses a pedradas em locais como a Baixa dos Sapateiros. Estes revidavam quebrando vidraças e lanternas nas ruas, conta o escritor Laurentino Gomes, autor dos livros 1808, 1822 e 1889.

Laurentino Gomes, escritor

Com a decisão de Dom Pedro de ficar no Brasil, em desafio às determinações das Cortes, Portugal passou a concentrar seus esforços militares em Salvador.

Ao menos 2.500 homens vieram da Metrópole reforçar os contingentes da Bahia, aos quais se juntaram integrantes da Divisão Auxiliadora, que haviam sido expulsos pelo príncipe regente do Rio de Janeiro. A Metrópole pensava em dividir o Brasil em dois: Sul e Sudeste ficariam sob o governo de Dom Pedro; Norte e Nordeste sob o domínio português. Além disso, Portugal alimentava a ideia de que, dominada a Bahia, suas tropas poderiam atacar o Rio e sufocar de vez as pretensões separatistas, esclarece o escritor Laurentino Gomes, especializado em História. “A resistência baiana decidiu a unidade nacional”, acrescenta o historiador Tobias Monteiro.

MADEIRA DE MELO

Enquanto a Corte, no Rio, preparava a instalação da Assembleia Legislativa e Constituinte do Império, a fim de dar ao país um arcabouço jurídico‑institucional, chegava a Salvador, no navio Danúbio, enviado por Portugal, o brigadeiro Inácio Luís Madeira de Melo, nomeado novo comandante das Armas da Bahia. Os ânimos se acirraram entre os nativos e os portugueses.
Brasileiros do Regimento de Artilharia se aquartelaram no Forte de São Pedro e elevaram o coronel Manoel Pedro Freitas Guimarães à patente de general, aclamando‑o comandante das Armas da Bahia.

Irritado com a insubordinação, Madeira de Melo bombardeou o quartel rebelde e os militares brasileiros, em minoria e com pouca munição, se viram forçados a fugir para organizar a resistência no interior. Salvador virou uma praça de guerra, com confrontos violentos nas Mercês, na Praça da Piedade e no Campo da Pólvora. O caos se estabeleceu na cidade. Tumultos, saques e quebra‑quebras obrigaram moradores a abandonar a capital com as famílias. “Em poucos dias, as vilas e fazendas do Recôncavo se transformaram em imensos campos de refugiados brasileiros. O restante da Bahia aderiu em peso à Independência do Brasil, formando um cinturão de isolamento aos portugueses encastelados em Salvador”, relata o escritor Laurentino Gomes.

Soldados e marinheiros portugueses, embriagados, festejavam a ocupação da cidade praticando arbitrariedades e excessos. A pretexto de perseguir “revoltosos”, atacavam casas particulares. Em 19 de fevereiro de 1823, invadiram o Convento da Lapa atrás de soldados brasileiros. Ao tentar impedi‑los de entrar, a soror Joana Angélica, 60 anos, foi morta a golpes de baioneta, transformando‑se na grande mártir da guerra pela independência na Bahia. No convento, os invasores só encontraram o velho capelão Daniel da Silva Lisboa, que abateram a coronhadas. “Um mito recorrente sobre a Independência do Brasil diz respeito ao caráter pacífico da ruptura com Portugal. Por essa visão, tudo teria se resumido a uma negociação entre o rei D. João VI e seu filho D. Pedro, com algumas escaramuças isoladas e praticamente sem vítimas. É um erro. A guerra foi longa e desgastante. Durou 21 meses, entre fevereiro de 1822 e novembro do ano seguinte. Nesse período, milhares de pessoas perderam a vida em roças, morros, mares e nos rios em que se travou o conflito”, conta Laurentino Gomes, no livro 1822.
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A morte de Joana Angélica comoveu os baianos, que deixavam em massa a capital rumo ao interior da província. Cachoeira passou a atrair retirantes de Salvador e de municípios como Santo Amaro da Purificação e se transformou no centro da resistência aos portugueses. Na cidade, um ato público que declarava lealdade a D.Pedro foi interrompido a tiros por uma escuna portuguesa que subia o rio Paraguaçu, em cujas margens se situa a cidade. Revoltada, a população atacou a embarcação.
O conflito durou três dias, ao fim dos quais foi criada uma junta para defender a cidade. Várias pessoas perderam a vida, mas Cachoeira resistiu ao ataque. A euforia, contudo, logo deu lugar à preocupação. “Os soldados estavam descalços, famintos e com soldos atrasados. Muitos morriam de tifo e impaludismo, febres endêmicas no Recôncavo. Faltavam médicos, enfermeiros, remédios e hospitais. As armas eram fabricadas de forma improvisada pelos próprios oficiais e soldados”, conta o escritor.

QUITÉRIA

“Vossa Mercê acabará na forca”. A advertência foi feita por Braz Baltazar da Silveira ao amigo João Antônio da Silva Castro, sertanejo que se radicara em São Félix, onde instalara uma oficina de cartuchame para uso das tropas da revolução que se anunciava. Em vão. João Antônio estava decidido a ir à guerra.

Enquanto chegavam reforços de Portugal e Dom Pedro I contratava oficiais estrangeiros para ajudar a expulsar os portugueses, o sertanejo chegava a Cachoeira com homens e farta munição. João Antônio, avô do poeta Castro Alves, montou por conta própria o Batalhão Voluntários do Príncipe, que ficaria conhecido como Batalhão dos Periquitos por causa do uniforme, que tinha colarinhos e punhos verdes.
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O corneteiro Lopes ganhou estátua em Ipanema, no Rio:
toque errado fez os portugueses abandonarem a batalha

O batalhão do comandante Periquitão faria história. Em visita ao acampamento dos soldados dele, o fazendeiro Gonçalo Alves de Almeida reconhece, uniformizada no meio da tropa, sua filha Maria Quitéria. Inflamada pelo ideal da independência, Quitéria cortara o cabelo bem curto, vestira as roupas do cunhado, José de Medeiros, e se alistara disfarçada de homem com os documentos do marido da irmã. Ela era o “soldado Medeiros”, respeitado pelos colegas pela bravura nos combates.

Gonçalo tenta levar a filha para casa, mas João Antônio não deixa. Quitéria se destacaria em combates como o da Ilha da Maré, da Barra do Paraguaçu, de Pirajá, Pituba e Itapuã. Quando o Batalhão dos Periquitos entrou na capital, em 2 de julho de 1823, foi aclamada pelo povo. Exemplo de coragem, recebeu a patente de cadete em 1823 do coronel Labatut e a medalha Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul das mãos do próprio Dom Pedro, em solenidade para a qual ganhou um uniforme especialmente feito para ela, com um saiote sobre a calça. De volta à Bahia, levou carta ao pai escrita pelo Imperador pedindo que a perdoasse pela desobediência.

Primeira mulher militar brasileira, Quitéria se tornou patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Em 1953, aos cem anos de sua morte, o governo brasileiro decretou que o retrato dela fosse inaugurado em todas as repartições, estabelecimentos e unidades do Exército do Brasil.

PIRAJÁ

A chegada do general francês Pierre Labatut e do almirante inglês Thomas Cochrane havia dado organização às tropas brasileiras e eliminado a supremacia marítima portuguesa. O bloqueio a Salvador se intensifica, os preços disparam e a fome assola a capital. O escritor Laurentino Gomes conta que uma galinha viva, avaliada em 880 réis no Rio, era vendida por 4.800 réis em Salvador. “Nossas privações vão crescendo, porque não entra para a cidade gênero algum de primeira necessidade”, reclamava, em carta a D. João VI, o general Madeira de Melo.

Marco da luta pela independência na Bahia, a Batalha de Pirajá é considerada “o maior embate militar das Américas” pelo historiador Cid Teixeira. O confronto, decisivo para o desfecho da guerra, contou com uma grande participação de negros, caboclos e índios, que se infiltravam à noite pela floresta e ao amanhecer se levantavam com flechas para atacar os portugueses.

“Teve muito corpo a corpo, muita gente morrendo por arma branca na Batalha de Pirajá, por baioneta, que era a grande arma. Isso aconteceu demais. Eles dispunham de arcabuz, bacamarte... Não era o fuzil de ferrolho. Isso não existia. Era arma de carregar pela boca, de tiro lento. Era disso que se dispunha. Inclusive teve militares de nacionalidade portuguesa, mas que já haviam se integrado no contexto da vida social, no desejo da independência do Brasil. E o grande exemplo é o corneteiro Lopes”, disse o historiador Cid Teixeira em documentário sobre o filme institucional do 2 de julho, feito pelo cineasta Lázaro Faria.

De fato, o corneteiro Luís Lopes protagonizou um episódio lendário na Batalha de Pirajá. Segundo o historiador Tobias Barreto, em seu livro A elaboração da Independência, Lopes teria recebido do major Barros Falcão, que comandava as tropas brasileiras, a ordem de soar o toque de retirada, já que a batalha estava perdida, mas, por engano, soou o “avançar cavalaria”, o que teria feito os portugueses fugirem, assustados com a perspectiva da chegada de um regimento de cavalaria brasileiro que não existia. “A façanha, boa demais para ser verdade, nunca foi comprovada”, observa Laurentino Gomes. O que não impediu o corneteiro Lopes de ganhar uma estátua em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Madeira de Melo também tentou romper o cerco a Salvador atacando Itaparica, mas encontrou resistência de soldados que haviam chegado de Alagoas e de um grupo de mulheres lideradas por Maria Felipa de Oliveira, uma negra marisqueira que se engajara na luta contra os portugueses desde que as notícias do Grito do Ipiranga chegaram à Bahia. Várias embarcações lusitanas foram incendiadas por aquelas mulheres, entre elas a Canhoneira Dez de Fevereiro, na praia de Manguinhos, e a Barca Constituição, na praia do Convento. Armadas de peixeiras e galhos de cansanção, elas surravam os portugueses que ousavam desembarcar na ilha para, depois, atear fogo aos barcos usando tochas de palha de coco e chumbo.
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Baianos comemoram, nas ruas, o 2 de julho: participação dos
índios na guerra é sempre lembrada pelo povo

“Apesar da historiografia da Independência não trazer muitos registros sobre isso, uma guerra das proporções da que ocorreu aqui na Bahia não poderia ser feita sem a participação das mulheres. Muitas delas se dedicaram a atividades de apoio às tropas. Mas houve muitos casos em que as mulheres lutaram corpo a corpo, como no caso da batalha de Itaparica, quando um grupo de mulheres impediu o desembarque de portugueses”, conta o historiador baiano Luís Henrique Dias Tavares, em seu livro Independência do Brasil na Bahia.

A FUGA

Sem suprimentos e abatido pelo fracasso das investidas de Pirajá e de Itaparica, Madeira de Melo deixa Salvador, na madrugada de 2 de julho de 1823, à frente de uma frota de 78 embarcações. Escoltados por 13 navios de guerra, 4.500 militares portugueses singram os mares em direção a Portugal, perseguidos por uma força naval comandada por João Francisco de Oliveira, o João das Botas.

Na manhã do mesmo dia, entra em Salvador o exército brasileiro, com 8.700 homens, acompanhados por mais de mil mulheres que os ajudaram nos combates e em serviços de enfermagem e cozinha, oficializando a libertação da Bahia e sua adesão ao Império Brasileiro.
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Reverenciada no Curuzu e na Liberdade, bairros negros de Salvador, Maria Felipa deu nome a uma instituição de defesa dos negros e de pesquisas sobre a raça. João das Botas, que organizou e liderou uma flotilha de barcos pesqueiros com a qual combateu os portugueses, ganhou a patente de tenente durante a guerra e hoje é um dos heróis da Marinha brasileira. Felipa e João, juntamente com Maria Quitéria e Joana Angélica, terão seus nomes incluídos no Livro dos heróis e das heroínas da Pátria, guardado no Panteão Tancredo Neves, em Brasília, conforme projeto aprovado em caráter terminativo pelo Senado, em março deste ano. O 2 de julho, desde 2013, integra o calendário das efemérides nacionais, graças a um projeto assinado pela presidenta Dilma Rousseff.

A Bahia saiu muito pobre da guerra, pois durante longo período ficou sem possibilidades de continuar o seu comércio, enquanto gastava recursos para formar tropas e apoiar o exército que chegaria, finalmente, do Rio de Janeiro”, comenta o historiador Luís Henrique Dias Tavares. Em compensação, a guerra até hoje é motivo de orgulho para os baianos. Todos os anos, no dia 2 julho o povo sai às ruas em uma festa que só perde para o Carnaval em participação popular, reproduzindo, nos cortejos, o Caboclo e a Cabocla matando a cobra, símbolos da vitória nativa sobre a opressão colonial

Ora bem, sem entrar em polêmicas separatistas e sem querer diminuir o valor patriótico dos irmãos baianos, nem da enfatização da grande mídia sobre o assunto abaixo, temos que levar em conta o tempo em que estes acontecimentos aconteceram. Segundo a enfatização da grande mídia separatista, em 1822 estava em seu começo a "Revolução Industrial" e os ingleses faziam de tudo para combater a influência portuguesa e espanhola no Brasil e na América Latina incentivando os movimentos independentistas, pois a mão de obra escrava atrapalhava a venda de seus produtos industrializados. Daí a enfatização e apoio bélico a esses movimentos como foi o caso de Salvador, do Brasil e da própria América latina com Bolivar, José de San Martín, Tiradentes e outros. Como vemos na própria postagem foram as tropas de Pierre Labatut e do almirante inglês Thomas Cochrane, tal como Cavendish no começo do Brasil que fomentaram o ódio entre os irmãos luso brasileiros. Claro que a independência política  teria que acontecer e não precisava ajuda de ninguém, pois, temos os mesmos sobrenomes, a  mesma cultura e os mesmos sentimentos que nos unem há mais de cinco séculos. Nunca vi esta mídia falar da obra portuguesa no Brasil, de nossa cultura e tradições comuns. Nunca vi esta mídia falar da fundação de Salvador, onde até Nóbrega chegou a pegar a colher de pedreiro  para apressar sua construção, pois o inimigo, que era o mesmo de hoje, ameaçava tomar todo o nordeste brasileiro.   

Mas o separatismo não perdoa e covardemente aproveita alguns momentos não muito felizes desta rica história - comum para nos dividir.          
E tanto que isto é verdade, que até hoje esta América Latina, o Brasil e essa cidade berço do Brasil ainda não conseguiram sua independência. E só irão consegui-la, quando brasileiros, portugueses, espanhóis e espano-americanos se unirem e se livrarem deste perverso separatismo que nos explora até hoje. 
     
 JPL