Luís Vaz de Camões (1525 – 1580), português,
Renascentista, estudioso de Coimbra, quando jovem, era irrequieto e dado
a algumas demonstrações de valentia. Era uma presença gentil na Corte
entre as damas sempre pronto a demonstrar sua admiração e galanteria
poética. Mas, é certo que amava de paixão, a Catarina de Ataíde, filha
de importante membro da administração do Império Português da época. A
paixão do poeta era correspondida pelo coração da nobre e bela Catarina,
linda jovem loura de olhos azuis, cuja beleza foi imortalizada pelo
poeta em muitos de seus sonetos.
Entretanto, além do amor ardente, o jovem Camões era fidalgo (filho
d´algo), mas de uma nobreza decaída e pobre, mas valente. E o poeta se
contentava com ver sua amada no Paço do Palácio Imperial e com ela
trocar juras às escondidas ou oferecer-lhe um carinho para, em troca,
roubar-lhe um beijo. Aguardava uma oportunidade para pedir ao pai,
austero, que lhe permitisse fazer a corte a Catarina… Queria-a como
esposa, naturalmente. Catarina consentia e aguardava a oportuna e feliz
ocasião.
Certo dia durante uma festa religiosa, uma Procissão, Camões meteu-se numa briga de
rua ferindo, à espada, um funcionário, cavalariço, do Rei e foi preso.
Mais tarde, perdoado pelo Rei, prontificou-se a servir o Império e fazer
o serviço militar obrigatório em Ceuta, na África. Era ainda muito
jovem, o Rei aprovou sua proposta. Lá, longe da amada e de casa, ao
enfrentar uma batalha de arco e flecha, Camões teve o olho direito
vazado, perdendo-o. Ao retornar a Lisboa, visitou a Corte e no Palácio,
ao vê-lo, uma das damas palacianas o saudou, com ironia, chamando-o “cara sem olhos“. Mas, o espirituoso vate, não deixou por menos: desfechou de improviso, com aquele mote, a seguinte resposta de gênio:
De longe vi o mal claro,
Que dos olhos se seguiu,
Pois cara sem olhos viu,
Olhos que lhe custam caro;
De olhos não faço menção,
Pois quereis que olhos não sejam:
Vendo-vos, olhos sobejam,
Não vos vendo, olhos não são!!
Depois, decidiu-se a viajar novamente. E foi-se, como Servidor do
Império, para a Índia, em Goa, passando, então, sete anos, sem ver a
amada Catarina nem seu rico Portugal.
Ao retornar, coberto de algumas glórias e com importante cargo
público, procurou logo saber de sua amada e prometida Catarina de
Ataíde. Reunia, agora condições de levá-la ao altar. No entanto, qual
não foi sua amarga surpresa ao saber que o pai, austero, a casara com um
janota sem cultura, que também vivia no Paço Imperial. E, viu, que
dessa forma lhe fora, assim, negada sua amada, embora contra a vontade
dela! Mas, este, era também um sinal dos tempos: casamentos arranjados
pelos pais, sem o conhecimento, nem o consentimento das filhas…
Luís de Camões, humilhado e defraudado, viu no gesto despótico do pai
de Catarina, uma certa semelhança com o que ocorrera na bíblica
história de amor entre Jacó e Raquel. De fato o Gênesis conta essa
história – muito linda por sinal – que foi, em resumo, a seguinte:
O amor de Jacó, filho de Isaac, pela prima, Raquel!
Depois de Jacó, pastor de ovelhas (que era gêmeo de Esaú), tirar de
seu irmão a primogenitura (situação jurídica muito importante no direito
judaico), de forma pouco amistosa (exigiu-a em troca de um prato de
guisado de lentilhas, que Esaú pedira ao irmão), Esaú, que era caçador,
furioso, queria matar Jacó. Rebeca, mãe dos gêmeos, aconselhou Jacó a
fugir para onde vivia seu tio, Labão, irmão de Rebeca, criador de
ovelhas. Lá encontrarás uma das filhas de Labão e com ela poderás casar-te, além de escapar à vingança de Esaú. Na verdade, Jacó fora concebido primeiro e, por Deus, era considerado o primogênito. Mas, os viventes não entendiam assim…
Jacó seguiu o conselho da mãe. Foi e enamorou-se da prima Raquel,
porque era uma serrana muito bela, porém, mais jovem do que sua irmã,
Lia. Jacó prontificou-se a trabalhar para seu tio, como pastor de seus
rebanhos, por sete anos, desde que lhe fosse garantida a mão de Raquel,
em casamento.
Labão, o tio, astuto pai de Lia e Raquel, concordou de pronto e assim
ficou selado o pacto entre ambos. Durante esses longos sete anos, no
pastoreio, Jacó cuidava e reproduzia os rebanhos, apenas contentando-se
em namorar a beleza de Raquel, à distância, para vê-la sorridente e
consentida, guardando para seu amado, toda a juventude e frescor, no
dia-a-dia, a espera de um só dia!
Passados os sete anos, Jacó reivindicou a Labão, o cumprimento da
promessa. Ansiava pelas núpcias com Raquel, o longo amor correspondido.
Grandes preparativos antecederam a grandiosa festa para o casamento de
Jacó e Raquel. Muito novilho cevado, muito vinho, muita alegria, muita
doçura do anfitrião, muitos convidados para o casamento, muitas
esperanças dos noivos!
De forma ambiciosa e astuta, porém, Labão o pai de Raquel, planejou
embriagar o inocente noivo, Jacó. Quando a festa ia alta, o noivo, já
quase desacordado, foi levado à sua alcova nupcial, numa tenda
especialmente preparada para os noivos. E lá, já no final da festa, pela
madrugada, Labão introduziu, na tenda nupcial, a filha mais velha, Lia,
que espontaneamente obedeceu ao pai, indo deitar-se com o noivo. E
consumou-se então o casamento de Jacó e Lia, para tristeza de Raquel. É
que o costume era casar primeiro as filhas mais velhas…
No dia seguinte, Jacó, furioso com a traição de Labão, pediu
satisfações ao sogro que, de forma tão vil e humilhante, o enganara.
Labão, muito esperto e gentil, não querendo perder seu eficiente Pastor,
pediu-lhe calma, dizendo: Meu filho, o costume é casar primeiro as
filhas mais velhas. Você terá também a sua amada Raquel. Para isso, para
isso, deve servir-me por outros sete anos…!
E Jacó, muito magoado, mas ainda esperançoso, concordou em servir a
Labão por outros sete anos, à espera de merecer também sua linda
pastora, Raquel.
Passado esse logo período, que de fato aconteceu,
recebeu, o Patriarca, Jacó, a posse de suas duas mulheres, Lia e Raquel e
mais as duas respectivas amas, de suas mulheres, além de muitos
rebanhos, que eram seus, por direito.
Era mister que se cumprisse o que Deus destinara para Jacó: ser o Pai das Doze Tribos de Israel.
Ele gerou doze filhos homens que, nascidos das quatro mulheres que lhe
foram entregues por Labão, lideraram, cada um, sua respectiva tribo,
além de receber riquezas e os seus imensos rebanhos de ovelhas! Raquel
deu à luz dois filhos: José e Benjamim, líderes cada um de sua tribo.
José foi grande no Egito, considerado Vice-Rei. O nascimento de Benjamim
foi penoso e custou a vida de sua mãe, Raquel, enterrada com grande
dor, por Jacó, em Belém da Judeia, cujo túmulo existe até hoje!
Então, pela semelhança de sua desdita amorosa com a bíblica história
do amor entre Jacó e Raquel, Luís Vaz de Camões, decidiu contar essa
história (a bíblica), como quem “bate na canga, pro burro entender” criando, para esse fim, este lindo soneto:
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida,
começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira se não fora
para longo amor, tão curta a vida!
Eis aí a riqueza literária de Luís Vaz de Camões