FUAS ROUPINHO--HERÓI OU CORSÁRIO?


 

Fuas Roupinho
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ermida da Memória, Nazaré:
painel de azulejos representando
o milagre a D. Fuas Roupinho.

Fernão Gonçalves Churrichão, o Farroupim, que passou à História como D. Fuas Roupinho, foi um guerreiro nobre português do século XII, um dos mais denodados companheiros de D. Afonso I de Portugal, possivelmente um cavaleiro da Ordem dos Templários, primeiro almirante da esquadra portuguesa, cujos feitos andam envolvidos em lenda, sendo hoje mais conhecido pelo seu papel de milagrado por Nossa Senhora da Nazaré conforme narra a Lenda da Nazaré.

Biografia

É um pouco difícil descrever esta extraordinária figura, pois não há dela qualquer referência dos Cronistas coevos, e os posteriores, à falta de notícias seguras, recorreram à tradição oral para formularem vagas narrações ou descrições pouco fundamentadas. Não se conhece a data do seu nascimento e julga-se que tenha sucumbido no ano de 1184, numa batalha naval com os Mouros. Também conta a lenda que teria sido irmão natural de D. Afonso I Henriques e seu amigo dedicado, como se refere na História Pátria, e que foi, afinal, Aio e Mestre de D. Pedro Afonso, outro filho natural do Conde D. Henrique de Portugal, mas na verdade filho natural de D. Afonso I Henriques. O seu nome está ligado ao processo de Reconquista Cristã da Península Ibérica, sob o comando do primeiro Rei de Portugal, D. Afonso I.
Em 1179 era Alcaide-Mor de Coimbra e encontrava-se no Castelo de Leiria quando teve notícia da presença, na Alcáçova de Porto de Mós, do Rei Mouro de Mérida, Gamir, que costumava repousar nesta terra, por admirar a beleza da região. Saiu com a sua hoste do Castelo de Leiria e atacou as forças Mouras, que foram derrotadas em renhido combate, apesar de usufruirem a vantagem duma considerável superioridade numérica. Depois seguiu, com o Rei Gamir e quase todo o Exército Mouro cativos, para Coimbra, onde foi recebido com aclamações triunfais. D. Afonso I Henriques, em reconhecimento do seu mérito, recompensou-o com a nomeação de Alcaide-Mor de Porto de Mós.
O seu nome também se destaca por ser o primeiro Comandante Naval Português conhecido, e como tal, o responsável pela primeira vitória da Marinha Portuguesa, tendo exercido, também, funções de Corsário. Contava de uma frota de quarenta navios.
Por encargo do Soberano veio a Lisboa, onde, com a ajuda da Vereação, aprontou uma Armada destinada a perseguir as Esquadras Sarracenas que assolavam o litoral. A Armada saiu de Lisboa e, a 29 de Julho de 1180, defrontou-se com a Sarracena, diante do Cabo Espichel. Os marinheiros Portugueses supriram a sua inexperiência neste género de luta, em que se iniciavam, com assombroso heroísmo, contra um inimigo experimentado em guerras marítimas ao longo das costas Africanas. A Esquadra Sarracena foi batida e muitos dos seus navios apresados. A Armada de D. Fuas Roupinho regressou ao Rio Tejo e Lisboa celebrou esta primeira vitória naval com regozijo público. Depois de reparada e aumentada com os navios apresados, a Armada saiu outra vez do Tejo, percorreu toda a costa para o Sul e a do Algarve ainda não conquistado e, como não tivesse encontrado navios inimigos, passou o Estreito de Gibraltar e fundeou nas águas de Ceuta, donde regressou, ao fim de dois dias, com inúmeras embarcações Mouras apresadas.
Em 1182, segundo a tradiçºao, D. Fuas Roupinho descansava em Porto de Mós ou se entregava ao exercício da caça. Neste tempo produziu-se o Milagre da Nazaré quando, a cavalo, perseguia ardorosamente um veado. No ano de 1184 saiu com a sua Armada, pela terceira vez, de Lisboa, em busca das Esquadras Sarracenas. Tal como no cruzeiro anterior, percorreu toda a costa portuguesa e passou o Estreito de Gibraltar, mas um temporal de grande violência atirou a Armada para as águas de Ceuta. Não há notícia segura da verdadeira importância desta Armada, que teve de aceitar batalha com a Esquadra Sarracena, vinda de Sevilha. O Cronista Árabe Ibn Khaldun refere que a Armada Portuguesa foi dispersa pelos Sarracenos, que apresaram 22 navios. Poucos mais deviam ser, pois Cronistas Portugueses atribuem à Armada de D. Fuas Roupinho o efectivo de pouco mais de 20 navios,que defrontaram valorosamente a força Moura, constituída, segundos os Cronistas, por 54 navios. Parece que o glorioso [[Almirante]}] sucumbiu nesta luta, em que grande parte das Guarnições Portuguesas ficaram prisioneiras. Luís Vaz de Camões referiu-se ao herói nos seguintes versos: Um Egas, e um Dom Fuas, que de Homero / A cítara para eles só cobiço..., Os Lusíadas, I-XII.

Camões refere D. Fuas Roupinho, no Canto VIII d'Os Lusíadas:
Vês este que, saindo da cilada,
Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?
Já o Rei tem preso e a vila descercada:
Ilustre feito, digno de Mavorte!
Vê-lo cá vai pintado nesta armada,
No mar também aos Mouros dando a morte,
Tomando-lhe as galés, levando a glória
Da primeira marítima vitória.
Os Lusíadas, estrofe 16 do Canto VIII
É, Dom Fuas Roupinho, que na terra
E no mar resplandece juntamente,
Com o fogo que acendeu junto da serra
De Abila, nas galés da Maura gente.
Olha como, em tão justa e santa guerra,
De acabar pelejando está contente:
Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,
Triunfando, nos céus, com justa palma.
Os Lusíadas, estrofe 17 do Canto VIII

Bibliografia

  • BOGA, Mendes. D. Fuas Roupinho e o Santuário da Nazaré. Lisboa, 1929.
  • GRANADA, João António Godinho. Nazaré, Nossa Senhora e D. Fuas Roupinho. Batalha, 1998.


Cabo de Espichel - Julho de 1180

Depois da conquista de Lisboa em 1147, levada a cabo com o auxílio de uma armada de cruzados, é natural que o objetivo seguinte de D.Afonso Henriques fosse a conquista de Alcácer do Sal, uma vez que não seria confortável ter tão perto de Lisboa uma importante base naval muçulmana, de onde, a qualquer instante podia partir uma armada a assolar a orla marítima portuguesa. Em 1151 é feita uma primeira tentativa, sem êxito, de assalto a Alcácer do Sal(território português) com o auxílio de uma pequena armada recrutada em Inglaterra. Em 1157 tem lugar uma segunda tentativa, igualmente infrutífera, desta vez com o auxílio de uma armada de cruzados que aportara ao Tejo. No ano seguinte, cercada por terra e por mar pelas forças portuguesas, desta vez sem auxílio estrangeiro, a cidade acaba por render-se, quando um exército de socorro é derrotado à sua vista.
Embora não existam documentos históricos relativos à marinha militar portuguesa nestes anos, é de admitir, que, nos dez anos que decorrem entre a conquista de Lisboa e a de Alcácer do Sal, em que a atividade militar marítima na zona entre os rios Tejo e Sado deve ter sido intensa, o número de galés portuguesas se tenha mantido, pelo menos, na casa das dez unidades. É também muito natural que depois da conquista de Alcácer do Sal as ações de corso dos Muçulmanos na costa portuguesa tenham diminuído.
Subitamente, vinte anos mais tarde, provavelmente na Primavera de 1179, quando nada o fazia prever, entrou no estuário do Tejo a frota de Sevilha, num total de nove galés, sob o comando de Ganim ben Mardanis, que capturou duas galés portuguesas que, estariam de vigia, e assolou os arredores da cidade, regressando a Sevilha com um riquíssimo despojo.
Na sequência deste ataque terá D.Afonso Henriques, encarregado um fidalgo chamado D.Fuas Roupinho de reativar a frota portuguesa e reorganizar a vigilância costeira.
Terá então, este, proposto ao rei uma ação de retaliação contra Sevilha que mereceu a sua aprovação. E, possivelmente no Verão de 1179, largou do Tejo a frota portuguesa, sob o comando de D.Fuas Roupinho, em que, possivelmente, iria embarcado o príncipe D.Sancho, a qual, depois de ter saqueado Saltes, nas proximidades de Huelva, subiu o rio Guadalquivir até Sevilha, onde destruiu várias galés muçulmanas e saqueou o arrebalde da cidade, regressando triunfante a Lisboa. Uma retaliação perfeita em relação á ação realizada meses antes pelos Muçulmanos!




Cabo Espichel - 1180

Não se conformaram estes com a ousadia dos cristãos, e logo no ano seguinte, 1180, ripostaram, enviando de novo a sua frota para a costa portuguesa, ainda sob o comando de Ganim ben Mardanis, ao que parece com ordem de destruir a frota portuguesa e, se possível, capturar D. Fuas Roupinho. Depois de, mais uma vez, ter saqueado o arrebalde de Lisboa, a frota muçulmuna dirige-se para São Martinho do Porto onde desembarca a gente de armas, que, por terra, se dirige a Porto de Mós, o lugar de residência de D.Fuas Roupinho. Porém, nas proximidades desta vila, os muçulmanos são derrotados pelas forças que D.Fuas conseguira apressadamente reunir, tendo sido todos êles, muito provavelmente, mortos ou feitos prisioneiros. Entre estes últimos contava-se Ganim ben Mardanis.
O que nos parece mais provável é que na sequência desta ação, a frota muçulmana se tenha recolhido a Alcácer do Sal, que era então a principal base naval dos Árabes na costa ocidental da península Ibérica, a fim de se refazer, antes de seguir viagem para Sevilha. Por seu turno, ao que parece, D.Fuas Roupinho ter-se-á dirigido para Coimbra a fim de dar conta ao Rei, que aí se encontrava, do desfecho do combate que tivera com os muçulmanos. Sabendo já D.Afonso Henriques das depredações que a frota de Ganim ben Mardanis tinha feito nos arredores de Lisboa e talvez até que a mesma se achava em Alcácer do Sal, ordenou a D.Fuas Roupinho, que reunisse de imediato a frota portuguesa e fosse tentar destruí-la.
É natural que D.Fuas tenha começado por reunir todas as galés que se encontravam nos portos do Norte e com elas se tenha dirigido para Lisboa onde se terá reforçado com as galés e a gente de armas que ali havia. Depois, a 15 ou 20 de Julho, saiu para o mar, talvez com a intenção de se ir colocar sobre a barra do Sado. Porém, ao dobrar o cabo Espichel, tropeçou com a frota muçulmana que, possivelmente por meros acaso, iniciava a viagem de regresso a Sevilha, envolvendo-se com ela numa encarniçada batalha.
O número de galés portuguesas andaria à roda da dezena, talvez dez ou onze (conforme se poderá deduzir dos acontecimentos posteriores), o que daria a D.Fuas uma ligeira superioridade numérica sobre o seu adversário. Por outro lado é natural que as guarnições dos navios muçulmanos estivessem bastante desfalcadas e consideravelmente desmoralizadas, com a derrota sofrida em Porto de Mós. Seja como fôr, a batalha terminou com uma vitória estrondosa dos portugueses, que capturaram todas as galés inimigas e entraram com elas triunfalmente em Lisboa.
Segundo as fontes árabes, D.Afonso Henriques terá então conferido a D.Fuas Roupinho, como prémio pela vitória que alcançara, o título de almirante.
O velho rei ergue a cabeça e olha. Olha e pensa. Pensa e revolta-se. Não se conforma com estar ali quedo e aborrecido, enquanto seu filho Sancho anda correndo aventuras e perigos no Alentejo e no Algarve. E também enquanto o seu fiel D. Fuas Roupinho se bate, de certo como o valente que sempre é, em Porto de Mós, defrontando um inimigo muito superior em número e em forças…
Não, não está certo! D. Afonso Henriques, o já velho monarca que lançara as raízes do novo reino de Portugal, não pode esconder a sua impaciência.
Estamos no ano de 1180. Mais ou menos a meio do ano. Ficara combinado que el-rei não saísse de Coimbra sem que chegassem notícias de Porto de Mós, ou algum mensageiro dos campos do Alentejo e do Algarve, por onde D. Sancho passeava a sua ânsia de conquista. Mas para D. Afonso Henriques essa espera é longa demais. Para entreter a sua impaciência, percorre a largos passos as câmaras da alcáçova de Coimbra, que já caíra em seu poder. Assoma a uma janela e exclama:
- Porém, que posso eu fazer… senão esperar? Que Deus se amerceie do meu bom Fuas Roupinho e que ele volte depressa à minha presença!
O rei de Portugal retoma o seu passeio. Agitado e inquieto. Não é homem para estar parado. Não é homem para aguardar serenamente os acontecimentos.
De súbito, um clamor inesperado corre pelas ruas, espalha-se pela cidade e acaba invadindo o próprio paço.
Os sentidos do velho monarca ficam alerta. Será um novo ataque dos mouros? A resposta não tarda a chegar, com o clamor alegre do povo. Clamor que sobe pela Couraça de Coimbra e que se precipita irresistivelmente ao encontro do velho rei.
E com o clamor vem D. Fuas Roupinho, alcaide de Porto de Mós, trazendo atrás de si um rebanho de mouros, prisioneiros e taciturnos.
-Bravo D. Fuas… Cheguei a recear por vós.
As palavras de el-rei são sinceras, e nelas se mistura a admiração e a amizade! D. Fuas ajoelha respeitosamente aos pés do rei. Depois ergue-se e diz:
- Senhor, a minha carne pode ser já velha, mas a moirama ainda não arranjou lanças capazes de me matar…
D. Afonso Henriques sorri.
- Sois sempre o mesmo, D. Fuas! Nem os anos nem as canseiras conseguem quebrantar vossa alma de lutador.
D. Fuas sorri também, ao responder:
- Aprendi convosco, Senhor! Com tal mestre, pena seria que eu saísse mau discípulo…
Foi a vez de rirem ambos. Sentando-se, e convidando D. Fuas a sentar-se, o rei de Portugal pede a D. Fuas, que lhe conte tudo quanto se passara.
Em breves e simples palavras, D. Fuas Roupinho conta essa grande aventura. Em certo momento, talvez porque ousara infiltrar-se demais no campo inimigo, vira-se cercado por forças muito superiores às suas. Refletira um pouco. Desafiar o inimigo à luz do dia seria imprudência. Valia mais esperar pela noite… Assim, quando a noite chegou, arrastados por D. Fuas os portugueses, poucos embora, num desses lances temerários em que a audácia esmaga o número, caíram de surpresa sobre os mouros, dominando-os por completo…
D. Afonso Henriques escuta-o em silêncio. Mas os olhos d’el-rei exprimem o seu contentamento. D. Fuas Roupinho manda então que ali mesmo amontoem aos pés do rei de Portugal as armas, as bandeiras e os tesouros que a sua bravura e a dos seus homens tinham sabido conquistar.
Depois, manda que tragam também, pálido e desalentado, o próprio rei mouro Gamir, comandante do exército inimigo.
- Senhor meu rei… Aqui tendes igualmente a vossos pés, Gamir, rei infiel de Mérida, o qual ousou desafiar o vosso poder… Agora, ele é apenas vosso prisioneiro.
O rei mouro deu um passo em frente.
- Tu… Tu és esse Iben Erik de que tanto se fala?…
Faz-se mais pálido. A sua voz transforma-se num murmúrio.
- Agora compreendo!… Como um chefe como tu… com cavaleiros como os teus… nada mais poderemos fazer… Que Alá nos proteja!… Vamos perder todas as nossas terras… todos os nossos tesouros!…
E sem forças para mais, Gamir cai redondo no solo, enquanto um grito aflitivo ecoa pela sala.
- Pai!… Meu querido pai!…
Soldados adiantam-se para separar a jovem que se abraçou ao velho rei mouro, chorando convulsivamente. Mas D. Afonso Henriques suspende-os com um gesto. E logo ali ordena que sejam retiradas as correntes que manietam os dois vencidos, e que passem a ser tratados como verdadeiros cristãos, entregues à guarda de D. Fuas Roupinho.
Entretanto, o tempo vai passando, e D. Fuas Roupinho recebe novos encargos do seu rei e senhor. Assim, por incumbência dele, dirige-se a Lisboa, onde apronta uma frota destinada a perseguir as galés sarracenas que infestam o mar. Pela primeira vez na história, os portugueses saem a lutar sobre as ondas do oceano. E embora ainda sem grande experiência, conseguem vencer declaradamente os Mouros, sem dúvida muito mais experimentados em batalhas marítimas, travadas ao longo da costa africana.
Foi esta a primeira vitória naval dos portugueses. Animados pelo próprio triunfo, atrevem-se a ir mais longe. Sempre sob o comando do intrépido D. Fuas Roupinho, primeiro almirante de Portugal, avançam até às águas de Ceuta, depois de terem percorrido triunfalmente toda a costa do sul. E de Ceuta voltam, trazendo apresadas inúmeras embarcações mouras.
A corte portuguesa veste galas para acolher D. Fuas Roupinho e os seus homens. O rei Afonso abraça o almirante vitorioso e diz-lhe:
- Ide para Porto de Mós, D. Fuas. Caçai e folgai a vosso gosto, que bem ganhastes o direito a descansar dos trabalhos da guerra.
Sem mostrar alegria nem tristeza, D. Fuas limita-se a dizer:
- Cumpro sempre as vossas ordens, sejam elas quais forem, senhor!
Reza a tradição que, no dia seguinte, D. Fuas se encaminhou para Porto de Mós. E que ali encontrou a jovem princesa moura chorando a morte de seu pai.
Mal vê o alcaide corre para ele.
- Senhor, senhor, nem sei como agradecer-vos… Mas o senhor meu pai pediu-me que o fizesse, mal vos visse… Fostes tão bom para ele e para mim!
D. Fuas Roupinho não consegue esconder a emoção.
- Graças, princesa. E conformai-vos com paciência. Foi Deus que assim o quis!
Ela ergue para ele os olhos, vermelhos de tanto chorar.
- Deus… Dissestes Deus?…
E logo, num desabafo íntimo, acrescenta:
- Gostaria de conhecer o vosso Deus… E muito em especial a Mãe desse Deus, que dizem ser tão bom e tão generoso…
De novo a emoção passa pelos olhos de D. Fuas Roupinho. As suas mãos acariciam os longos e negros cabelos da jovem princesa moura. E promete:
- Amanhã mesmo te levarei a ver a Sua Imagem… uma imagem que eu venero!
Cumprindo o prometido, manhã cedo, D. Fuas Roupinho leva consigo a jovem princesa moura e vai mostrar-lhe a imagem de Nossa Senhora, entre duas rochas, na Nazaré.
Pela primeira vez na sua vida, a filha do rei Gamir cai de joelhos diante de uma imagem cristã.
É linda a Vossa Senhora… Muito linda!
E D. Fuas Roupinho conta-lhe então, docemente, a história maravilhosa daquela imagem.
Um monge grego fugira com ela para Belém de Judá, dando-a a S. Jerónimo. Este, por sua vez, mandara-a a Santo Agostinho. E Santo Agostinho entregara-a ao Mosteiro de Cauliniana, a uns doze quilómetros de Mérida. Aí puseram à imagem o nome de Nossa Senhora da Nazaré, por ela ter vindo da própria terra natal da Virgem Maria.
Quando os mouros derrotaram os cristãos, obrigando o rei Rodrigo a fugir para Mérida, Rodrigo levou consigo a preciosa imagem. Mas nem mesmo assim se sentiu absolutamente seguro. E resolveu fugir de novo, agora na companhia do abade Frei Romano, possuidor de uma preciosa caixa de relíquias que pertencera a Santo Agostinho.
Após uma aventura dramática, quase mortos, os dois homens chegaram ao sítio da Pederneira, na costa do Atlântico. Então, resolveram separar-se.
Rodrigo ficou no monte que se chama de São Bartolomeu e Frei Romano foi viver para o monte fronteiro.
Combinaram, porém, corresponder-se por meio de fogueiras, que acendiam à noite.
Mas, certa noite, a fogueira de Frei Romano não se acendeu. Não mais se acenderia! Rodrigo acudiu inquieto, e foi encontrá-lo morto. Apavorado, escondeu a imagem e a caixa de relíquias numa lapa, e abalou dali, correndo como um doido.
Segundo conta ainda a tradição, veio a morrer perto de Viseu, num sítio denominado Fetal…
Concluindo a sua história, D. Fuas Roupinho acrescenta, olhando a imagem:
- Só há bem pouco tempo alguns pastores a descobriram, e eu logo me tornei um dos seus maiores devotos. Venero-a com todas as forças da minha alma…
A jovem princesa parece alheada e distante. Olhos fitos na imagem, repete como em oração:
- É linda, a Senhora!… É linda, a Senhora!…
D. Fuas afaga-lhe a cabeça e diz-lhe meigamente:
- Olha, minha filha… Podes ficar aqui a adorá-la o tempo que quiseres. Eu vou caçar. Depois, voltarei a buscar-te.
E é então que se passa algo de extraordinário.
D. Fuas Roupinho monta a galope pelo campo, quando vê de repente passar junto de si um vulto negro e estranho… É um veado! – pensa ele… – Um veado, com certeza!
Sente-se feliz. Não poderia começar melhor a sua caçada. Para mais, um veado como nunca vira em toda a sua vida. Esporeia mais o cavalo. Não pode perder presa de tanto valor… Como num desafio, o veado torna a passar junto dele. Uma vez. Duas vezes. D. Fuas Roupinho sente irromper todo o seu brio. Pois um herói como ele, um homem habituado aos combates mais árduos, vai perder uma tão formidável peça de caça? Nunca! Há-de apanhar o veado, custe o que custar. Esporeia o cavalo até fazer sangue e aproxima-se da presa. Já falta pouco. Está quase a alcançá-lo… De lança em riste, já canta vitória…
Mas, de repente, vê a terra desaparecer sob as patas do cavalo… Está à beira dum precipício, a pique sobre o mar!.. Um brado aflitivo sai-lhe da garganta, enquanto o cavalo se empina, relinchando desesperadamente, e o veado se some no espaço, desfazendo-se como fumo:
-Virgem Santíssima, valei-me! Valei-me minha Nossa Senhora da Nazaré!
Por um instante (parece uma eternidade) cavalo e cavaleiro lutam sobre o abismo. Mas a Virgem ouvira decerto o apelo angustiado de D. Fuas Roupinho. E ele salva-se. Por milagre. Por autêntico milagre!
Nas rochas, ficam marcadas as patas traseiras do cavalo, sinais que ainda hoje ali se podem ver.
D. Fuas corre ao local onde deixara a jovem princesa junto da imagem de Nossa Senhora. Encolhida a um canto, trémula, o rosto banhado em lágrimas, ela mostra-se aliviada ao vê-lo regressar.
- Oh, senhor, tive tanto medo!… Ainda bem que voltastes!… Passou por aqui um animal medonho… Parecia o Génio do Mal!
- Bem sei… Bem o vi…
E sem mais palavras de momento, o cavaleiro desmonta e ajoelha, rezando fervorosamente, a agradecer à Virgem o auxílio que lhe prestara. De que lhe serviria, afinal, ser um herói como era, se não tivesse a seu lado a protegê-lo a presença milagrosa de Nossa Senhora da Nazaré? Esse, sim, era o maior de todos os prodígios!
E enquanto se ergue, respirando fundo, como se a afastar os últimos temores, D. Fuas Roupinho confessa serenamente:
- Sim, jovem princesa… O monstro que passou por aqui, transformado em veado, era o próprio Demónio… Estive prestes a morrer, tentado por ele, mas Nossa Senhora salvou-me!
E, com súbito entusiasmo, acrescenta:
- Hei-de levar esta imagem para o local do milagre, para o sítio onde tudo aconteceu… Lá ficará, pelos séculos fora, como símbolo do misericordioso poder da Virgem!
E logo dali sai a cumprir a promessa. À ordens de D. Fuas Roupinho – e, segundo se diz, ajudando-os por suas própria mãos – pedreiros de Leiria e de Porto de Mós constroem a Capela da Virgem num sítio chamado da Memória, em memória de tão extraordinário milagre que salvara o almirante português de morte certa e brutal.
E a imagem de Nossa Senhora da Nazaré lá continua a invocar a lenda, atraindo todos os anos milhares e milhares de fiéis, por ocasião das afamadas e tradicionais festas da vila.

Lendas de Portugal

Gentil Marques, Rui Castro

Comentário extra: E o separatismo anti-lusófono ainda chama Fuas Roupinho de corsário e pirata!!! A análise fica com os amigos internautas...
Bibliografia:

Quintella, Ignacio da Costa, Annaes da Marinha Portugueza, Academia Real das Sciencias, Lisboa, 1839, Tomo I, p. 11
Morais, Tancredo de, História da Marinha Portuguesa, Clube Militar Naval, Lisboa, 1940, p.135
Pereira, António Rodrigues, História da Marinha Portuguesa, Escola Naval, Lisboa, 1983, Parte I, p. 105
Picard, Christoph, L'océan Atlantique musulman, Unesco,Paris, 1997, pp.181, 182, 351, 353, 355 (Informação do Comandante Gomes Pedrosa)
Albertina da Siva Barbosa, Homens, Doutrinas e Organização, Academia de Marinha, Lisboa, 1998, p.252
Nota: Texto corrigido e aumentado com vista à 2ª edição do Volume I de Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa.

Porto de Mós

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Coordenadas: 39º36'06"N 8º49'03"O

Bandeira de Porto de Mós


Gentílico: Portomosense; Porto-mosense
Área: 264,88 km²
População: 24 263 hab. (2011)
Densidade populacional: 91,6 hab./km²
N.º de freguesias: 13
Fundação do município:
(ou foral) 1305
Região: (NUTS II) Centro
Sub-região: (NUTS III) Pinhal Litoral
Distrito: Leiria
Antiga província: Estremadura
Orago: São Pedro
Feriado municipal: 29 de Junho
Código postal: 2480
Endereço dos Paços do Concelho: www.municipio-portodemos.com
Sítio oficial: http://www.municipio-portodemos.pt
Endereço de correio eletrónico: geral@municipio-portodemos.pt


Porto de Mós é uma vila portuguesa pertencente ao distrito de Leiria, região Centro e sub-região do Pinhal Litoral, com cerca de 6. 200 habitantes.

É sede de um município com 264,88 km² de área e 26. 842 habitantes (2006), subdividido em 13 freguesias. O município é limitado a norte, pelos municípios de Leiria e da Batalha, a leste por Alcanena, a sul por Santarém e Rio Maior e a oeste por Alcobaça.

Rua do Cid, em Porto de Mós
Segundo a lenda da Nazaré, o cavaleiro D. Fuas Roupinho, miraculado por Nossa Senhora da Nazaré, em 1182, foi alcaide de Porto de Mós. Segundo outras fontes, venceu um grande exército muçulmano que cercava o castelo, recorrendo ao estratagema de se esconder previamente na serra com parte dos seus homens. Derrotou o inimigo com um ataque surpresa ao seu acampamento, durante a noite.
A vila recebeu foral de Dom Dinis em 1305.


Praia de Porto de Mós em Lagos
População do concelho de Porto de Mós (1801 – 2004)
1801 1849 1900 1930 1960 1981 1991 2001 2004
10742 9801 12554 16296 21220 21700 23343 24271 24775

Património

* Castelo de Porto de Mós
* Igreja de S. Pedro
* Igreja de S. João
* Capela de Sto António

Freguesias do concelho de Porto de Mós

* Alcaria
* Alqueidão da Serra
* Alvados
* Arrimal
* Calvaria de Cima
* Juncal
* Mendiga
* Mira de Aire
* Pedreiras
* São Bento
* São João Baptista (Porto de Mós)
* São Pedro (Porto de Mós)
* Serro Ventoso

Castelo de Porto
de Mós
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Castelo de Porto de Mós,
Portugal: detalhe de um coruchéu.

Castelo de Porto de Mós: detalhe de uma janela.


Castelo de Porto de Mós: detalhe de uma abóboda.


O Castelo de Porto de Mós, também referido como Castelo de D. Fuas Roupinho, localiza-se na freguesia de São Pedro, na vila de Porto de Mós, no distrito de Leiria, em Portugal.

Erguido sobre um outeiro, em posição dominante sobre a povoação, o seu nome está ligado ao de D. Fuas Roupinho, imortalizado nos versos de Luís de Camões e na lenda da Nazaré.


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