MASSACRE DE FERREIRO TORTO

Raphael Luiz - Foto A
O imponente Solar Ferreiro Torto (Foto: Raphael Luiz/Fotec)
PRIMEIRO MASSACRE - FERREIRO TORTO



Quando em 1614 Francisco Rodrigues Coelho recebeu como dote as terras onde hoje fica localizado o Solar Ferreiro Torto, em Macaíba, a cerca de 18 quilômetros de Natal, capitão Coelho não imaginava que o local entraria para a história do RN.
Nas terras, capitão Coelho construiu o segundo engenho de cana-de-açúcar da capitania do Rio Grande do Norte, conhecido como Engenho Potengi. O engenho, que produzia rapadura e derivados da cana, não durou muito tempo devido às terras de mangue serem pouco produtivas para o cultivo da cana-de-açúcar.
Em 1634, durante a ocupação holandesa no estado, o engenho foi palco do primeiro massacre de colonos que viria a acontecer no RN. Os holandeses, ajudados pela feroz tribo dos Janduís, atacaram o engenho onde vitimaram o capitão Francisco Coelho, sua família e cerca de 60 outras pessoas, entre escravos e refugiados. Lavaram as terras do Engenho Potengi com um banho de sangue.
Após a chacina no Engenho Potengi em 1634, agora já em 15 de julho de 1645,  seguiu-se o terrível massacre de Cunhaú. As terras do capitão Coelho em Macaíba, as terras do engenho, ficaram desabitadas cerca de 212 anos.
Em 1847, o coronel da Guarda Nacional, Estevão José Barbosa de Moura, adquiriu as terras do então sítio Ferreiro Torto. Coronel Estevão demoliu a velha casa e ergueu o imponente casarão em estilo colonial português, denominando-o então de Solar Ferreiro Torto. Alguns anos depois, com a morte do coronel, as terras voltaram a ficar inabitadas e passaram pelas mãos de algumas poucas famílias.
Após anos abandonado, o Solar Ferreiro Torto ficou praticamente em ruínas. Até que na década de 70 foi desapropriado e tombado pelo governo, através do Instituto Histórico e Geográfico, que em 1979 realizou uma restauração no casarão, transformando-o em Museu de Arte Sacra.
Posteriormente, o solar passou a ser administrado pela prefeitura de Macaíba, chegando a ser a sede da administração do município, até que em 1997 virou oficialmente o Museu do Ferreiro Torto.
Atualmente o museu possui uma vasta coleção de artigos religiosos, quadros e objetos da época do engenho. Segundo Leonel Lopes, guia turístico do Solar, a maioria dos artigos religiosos é do artista macaibense Aldo Rodrigues. O museu ainda possui uma grande coleção de artigos pessoais de dois ilustres cidadãos de Macaíba, o ex-governador do estado Alberto Maranhão, e Augusto Severo um dos pioneiros da aviação brasileira.
Como principais artigos em exposição no museu, Leonel destaca os objetos usados na casa de farinha e o carro de boi, ainda da época do engenho, datados do século XVIII.
Objetos da casa de farinha (Foto: Raphael Luiz)
Objetos da casa de farinha (Foto: Raphael Luiz)

O guia ressalta ainda o projeto “Sexta no solar”, que acontece uma vez por mês com atrações culturais do município e reafirma o museu como um importante espaço de eventos culturais para o município. “O Ferreiro Torto representa um período histórico muito importante do estado. É um espaço que deveria ser mais visitado e valorizado”, afirma.
Josafá Fernandes, agente cultural de Macaíba, conta que o casarão ainda possui uma lenda. Trata-se de um suposto romance entre a filha do capitão Coelho e um dos escravos do engenho. “O coronel os flagrou conversando. Ao atirar com a espingarda para matar o escavo, acabou acertando a própria filha”, conta Josafá. O escravo foi condenado a ser enterrado vivo. A paixão acabou em tragédia, deixando a lenda de que o prédio é mal assombrado pelo espírito do casal.
Quanto aos relatos de assombração, o guia Leonel Lopes disse nunca ter visto nada. “Mas presenciei pessoas que disseram que viram, sentiram e até incorporaram espíritos após entrarem no casarão”, contou.
O Ferreiro Torto, que completará 400 anos em 2014, possui um coordenador, duas auxiliares administrativas e um guia turístico em cada turno. O museu fica aberto para visita de segunda a sexta, das 7h as 12h e das 13h as 17h. Visitas podem ser agendadas através do telefone (84) 3271-6524.

Conhecer a história do Solar Ferreiro Torto é conhecer um pouco da história de Macaíba e do Rio Grande do Norte. Visitar o museu nos leva numa viagem através dos anos. Nos faz conhecer histórias e relembrar personalidades. O solar é sem dúvida um local único. Nele existe uma aura diferente de todos os lugares que já conheci.
Já havia visitado o Ferreiro Torto algumas vezes, mas nunca com um olhar jornalístico, com o intuito de registrar a sua história. Foi extremamente gratificante contar a história de um lugar tão especial da minha cidade. Foi como uma grande e divertida aula de história.
Espero que o museu seja mais visitado e valorizado, pois o Solar Ferreiro Torto ainda possui muitas histórias para contar.

         ORIGEM DO NOME FERREIRO TORTO



No inicio do século passado, a propriedade pertenceu a Bruno Pereira, vale destacar o capitulo " A vida na fazenda ferreiro torto", do livro gira mundo  de autoria de Aécio Pereira de Souza, filho do Sr. Bruno Pereira. O nome Ferreiro Torto,segundo afirma Aécio, teve origem em um coqueiro muito alto e torto, que existia bem próximo à porteira da fazenda, e quase em baixo desta árvore um ferreiro havia montado a sua tenda e oferecia os seus serviços aos tropeiros, que por ali passavam e tinham necessidades de corrigir as ferraduras dos seus animais.
Na década de 1920, o rio Potengi vinha até ao antigo cais próximo ao sobrado da casa grande e era possível navegar da fazenda até ao cais do Passo da Pátria,em Natal.
Era com certeza, a propriedade mais bonita e que oferecia melhores condições de utilização dos recursos naturais da região. O terreno  era coberto por extensa floresta de mata atlântica, em que em parte ainda permanece conservada.
Havia também o canavial que abastecia o engenho, a plantação de mandioca que fornecia matéria-prima para o fabrico da farinha e nos seus pomares frutas variadas de sabor inigualáveis. O último proprietário do Solar do Ferreiro Torto foi a viúva Machado. Na década de 1980, o Solar foi restaurado para se tornar a sede do poder executivo Municipal, o que infelizmente, modificou a estrutura original do prédio.Nos dias atuais,o solar do Ferreiro Torto,tombado pela Fundação José Augusto, guarda em seus aposentos a História do Município de Macaíba.

          





SEGUNDO MASSACRE - CUNHAÚ



Mártires de Cunhaú e Uruaçu: a história do massacre sanguinário de religiosos e fiéis


CUNHAÚ CAPELA
 Capela de Nossa Senhora das Candeias, em Cunhaú, onde aconteceu o massacre
          
Em 16 de junho de 1645, o padre André de Soveral e outros 70 fiéis foram cruelmente mortos por 200 soldados holandeses e índios potiguares. Os fiéis estavam participando da missa dominical, na Capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú, no município de Canguaretama (RN). O que motivou a chacina? A intolerância calvinista dos invasores que não admitiam a prática da religião católica: isso custou-lhes a própria vida.

A chacina de Cunhaú

O movimento de insurreição contra o domínio holandês já começara em Pernambuco, mas, na capitania do Rio Grande do Norte, tudo parecia normal. Bastou, porém, a presença de uma só pessoa para que o clima se tornasse tenso: Jacó Rabbi, um alemão a serviço dos holandeses. Ele chegara a Cunhaú no dia 15 de julho de 1645.
Rabbi era um personagem por demais conhecido dos moradores de Cunhaú. Suas passagens por aquelas paragens eram frequentes, sempre acompanhado dos ferozes tapuias, semeando por toda parte ódio e destruição. A simples presença de Rabbi e dos tapuias era motivo para suspeitas e temores.
“Além dos tapuias, Jacó Rabbi trazia, desta vez, alguns potiguares e soldados holandeses. Ele dizia-se portador de uma mensagem do Supremo Conselho Holandês, do Recife, aos moradores de Cunhaú.
No dia 16 de julho, Domingo, um grande número de colonos estava na igreja, para a missa dominical celebrada pelo Pároco, Pe. André de Soveral. Jacó Rabbi mandara afixar nas portas da igreja um edital, convocando a todos para ouvirem as Ordens do Supremo Conselho, que seriam dadas após a missa.
Como havia um certo receio pela presença de Jacó Rabbi, alguns preferiram ficar esperando na casa de engenho.
cunhau1
Quadro do Monsenhor Assis sobre os mártires de Cunhaú

Chegou a hora da missa. Os fiéis, em grupos de familiares ou de amigos, dirigiram-se à igrejinha de Nossa Senhora das Candeias. Levados apenas por cumprir o preceito religioso, os fiéis não portavam armas, mas só alguns bastões que encostaram nas paredes do pórtico.
O padre André inicia a celebração. Após a elevação da hóstia e do cálice, erguendo o Corpo do Senhor, para a adoração dos presentes, a um sinal de Jacó Rabbi, foram fechadas todas as portas da Igreja e se deu início à terrível carnificina.
Foram cenas de grande atrocidade: os fiéis em oração, tomados de surpresa e completamente indefesos, foram covardemente atacados e mortos pelo flamengos com a ajuda dos tapuias e potiguares.
Ao perceber que iam ser mesmo sacrificados, os fiéis não se rebelaram. Ao contrário, "entre mortais ânsias se confessaram ao sumo sacerdote Jesus Cristo, pedindo-lhe, com grande contrição, perdão de suas culpas”, enquanto o padre André ‘exortava seus fiéis a bem morrer, rezando apressadamente o ofício da agonia”...




TERCEIRO MASSACRE - CHACINA DE URUAÇU
 
CUNHAÚ 3
                
Três meses depois do massacre de Cunhaú aconteceu o martírio de mais 80 pessoas em Uruaçu, São Gonçalo do Amarante, e sempre pelas mãos dos calvinistas holandesescomandados pelo flamengo Jacó Rabbi. Entre elas estava o camponês Mateus Moreira, que teve o coração arrancado pelas costas, enquanto repetia a frase: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento”. Isso aconteceu na Comunidade de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante (a 18 km de Natal).

Contam os cronistas da época que as notícias dos graves e dolorosos acontecimentos de Cunhaú se espalharam rapidamente por toda a capitania do Rio Grande do Norte e capitanias vizinhas. A população ficou assustada e temia novos ataques dos tapuias e potiguares, instigados pelos holandeses.
Também desta vez tudo aconteceu sob o comando de Rabbi, ajudado pelo chefe potiguar Antônio Paraopaba.

Os índios já tinham sido avisados das intenções dos dois e logo em seguida lá estava o chefe potiguar com os seus comandados, mais de duzentos índios, bem armados.
Logo que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos moradores que se despissem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios, que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos.
Teve início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo pelos cronistas portugueses. Nas descrições, nota-se o contraste entre a crueldade dos algozes e a resignação e o perdão das vítimas:
“Começaram a dar tão desumanos e atrozes tormentos aos homens que já muitos dos que padeciam tomavam por mercê a morte. Mas os holandeses usaram da última crueldade entregando-os aos tapuias e potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram anatomias incríveis, arrancando a uns os olhos, tirando a outros as línguas e cortando as partes verendas e metendo-lhas nas bocas…”
A descrição da morte de Mateus Moreira é o ponto mais expressivo de toda a narrativa de Uruaçu e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na hora do martírio.
“Os algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas, e ele morreu exclamando: ‘Louvado Seja o Santíssimo Sacramento.”

Monumento aos mártires, em São Gonçalo do Amarante
28/09/2011 - Especial de Uruaçu,
Monumento dos Mártires em Uruaçu São Gonçalo/RN.
foto:Emanuel Amaral/H:/Selecionadas
  
Processo de beatificação dos mártires de Cunhaú e Uruaçu pelo Papa João Paulo II

Segundo Monsenhor Francisco de Assis Pereira, Postulador da Causa de beatificação desses Mártires, “a memória dos servos de Deus sacrificados em Cunhaú e Uruaçu, em 1645, permaneceu viva na alma do povo potiguar, que os venera como autênticos defensores da fé católica”. O processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé, no dia 16 de junho de 1989, e, em 21 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II assinou o Decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdotes e 28 leigos.
Mons. Assis acompanhou o processo por mais de dez anos, reunindo documentos em pesquisas realizadas em Portugal, Holanda e no Brasil. Deste material resultou o livro Protomártires do Brasil, de sua autoria.
A cerimônia de Beatificação acontecerá no dia 5 de março de 2000  na praça de São Pedro, em Roma. A celebração será presidida pelo Papa. O Cardeal Dom Eugênio Sales, filho do Rio Grande do Norte, presidirá, numa Igreja de Roma, a missa em ação de graças pela beatificação dos Protomártires brasileiros, os primeiros que derramaram o sangue pela fé em nossa Pátria e cujo martírio é reconhecido oficialmente pela Igreja. Fala-se que um grande monumento será construído no local onde aconteceu o martírio de Uruaçu.




ALGUNS CRONISTAS DAQUELA ÉPOCA DESCREVERAM O MASSACRE ACONTECIDO EM CUNHAÚ E URUAÇU EM 1645.

Protomártires do Brasil

“Trata-se de dois casos de martírio coletivo ocorridos em localidades do interior do Rio Grande do Norte, na primeira metade do século XVII. Vivia-se o conturbado período do domínio holandês no Nordeste do Brasil (1630/­1654), quando as autoridades flamengas, influenciadas pela Igreja Cristã Reformada Calvinista, iniciaram verdadeira perseguição religiosa às pequenas comunidades nascentes de católicos da então Capitania do Rio Grande, que começavam a se organizar. A situação agravou-se de tal maneira que culminou com o holocausto de numerosos cristãos dessas comunidades...”

(Trecho da Introdução de Protomártires do Brasil, de Mons. Francisco de Assis Pereira, Aparecida-SP,Editora Santuário, 2000)

Os relatos seguintes, que fazem parte de um capítulo do livro referido acima, contribuíram para a Beatificação de 30 mártires brasileiros pelo Santo Padre, no dia 21 de dezembro de 1998.
 
PADRE AMBRÓSIO FRANCISCO FERRO E OS COMPANHEIROS SACRIFICADOS EM URUAÇU
 
1. Os moradores do Rio Grande refugiam-se na Fortaleza dos Reis Magos e em Potengi
 
As notícias dos graves e dolorosos acontecimentos de Cunhaú espalharam-se rapidamente por toda a capitania do Rio Grande e capitanias vizinhas. A população ficou assustada e temia novos ataques dos tapuias e potiguares, instigados pelos holandeses. Urgia tomar medidas preventivas e defensivas. Mesmo suspeitando conivência das autoridades flamengas nesses ataques, alguns moradores influentes do Rio Grande, entre os quais o vigário Pe. Ambrósio Francisco Ferro, Antônio Vilela, o Moço, Francisco de Bastos, Diogo Pereira e José do Porto, não tiveram outra alternativa senão recorrer ao comandante da Fortaleza dos Reis Magos, cujo nome tinha sido mudado para Forte Ceulen, para ficarem lá sob proteção militar. Foram recebidos como hóspedes, não sabendo estes que a hospitalidade terminaria em tragédia1 .
A ameaça pairava, porém, sobre todos os outros mora­dores, em número bem maior. Que fazer? O Forte não com­portava tanta gente. Parecia necessário que os moradores assumissem a sua defesa por conta própria. Assim pensando, resolveram providenciar a construção de uma fortificação rude, na pequena cidade de Potengi2, a 25 quilômetros da Fortaleza.
Pela distância indicada se deduz não poder tratar se da própria cidade de Natal, situada a apenas dois quilômetros da Fortaleza dos Reis Magos. Foi este o lugar escolhido pelos moradores do Rio Grande para se defenderem contra os ataques dos índios tapuias e dos holandeses.
Os três cronistas portugueses, Lopo Curado Garro, Diogo Lopes Santiago e Frei Rafael de Jesus, descrevem o abrigo de Potengi e a maneira como os moradores conseguiram sobreviver e responder aos ataques dos adversários. Tomemos, como exemplo, a narração de Santiago:
“Determinaram, como fizeram, de se recolher com suas mulheres e mais famílias a uma cerca ou paliçada de pau-a-pi­que que fizeram com seus escravos, e forneceram de mantimentos para muitos dias, em um sítio acomodado para sua defesa chamado Potengi (...) e nesta cerca estiveram recolhidos três meses, padecendo muitas misérias e trabalhos, sendo acometidos muitas vezes de seus inimigos, que, não satisfeitos do sangue que tinham derramado, lhes queriam também esgotar o seu. Eram os moradores que estavam dentro na cerca, setenta homens com suas mulheres, filhos e escravos.” 3  
As expressões “cerca de pau-a-pique” e “paliçada” usa­das pelos cronistas portugueses não nos devem levar a uma falsa conceituação do tipo de abrigo levantado. Trata-se evidentemente de uma construção sólida, ampla e com cobertura, capaz de resistir três meses ao assédio constante de armas de fogo e máquinas de guerra e, ao mesmo tempo, abrigá-los contra as intempéries e guardar seus pertences e mantimentos.
Do lado holandês, várias fontes confirmam a existência do abrigo de Potengi e o seu desmantelamento sob as ordens de Jacó Rabbi4.O documento mais importante, e ainda inédito, é o Diário de Viagem à Paraíba e ao Rio Grande, do Alto e Secreto Conselheiro Adriaen van Bullestrate (4 de outubro—29 de outubro de 1645), cujo original consultei em Haia, na coleção “Lirieven en Papieren uit Lirazilie”, maço 60, do Arquivo Geral do Reino. O prof. José Antônio Gonçalves de Mello, a meu pedido, traduziu a parte do texto referente ao Rio Grande, onde Bullestrate chegou a 11 de outubro, que aqui transcrevo em primeira mão:
“Por ordem dos Nobres e Secretos Conselheiros transportei-­me à Paraíba e dali ao Rio Grande e segue-se o que ocorreu:
11 de outubro:
Antônio Paraopaba, regedor dos Brasilianos, havia partido com alguns de sua gente para o Cunhaú. Foi convocado para um entendimento. Jacob Rabbi havia ido para Potengi, situa­do a cerca de cinco milhas do Castelo (Ceulen).
Soube que os portugueses haviam sido mortos pelos Brasilianos por toda a Capitania, inclusive alguns que eles haviam assediado e se haviam entregado por acordo (...). Soube mais que os portugueses que se haviam assentado no Castelo Ceulen, atual forte dos reis Magos,  haviam sido também todos mortos (...).
12 de outubro:
Parti para Potengi, situado a cerca de 5 milhas do Castelo, tendo ali encontrado uma casa bem fortificada e cercada de estaca, na qual os portugueses se tinham feito fortes; nela encontravam-se 232 pessoas, compreendendo mulheres e crianças portuguesas e mais 100 negros dos portugueses que permaneceram. Algumas dessas pessoas pediram para poder ir de barco para lgaraçu, outras para ir para o cercado ao pé do forte e todas que as suas vidas e das crianças lhes fossem poupadas. Permiti que aqueles que quisessem viajar para o forte pudessem fazê-lo e às outras foi concedida a segurança.
13 de outubro:
Acordou-se com o Comandante Blaeubeeck, seu tenente e porta-bandeira, o escolteto Schout, Antônio Paraopaba e Jacob Rabbi o que será mais conveniente para a segurança desta capitania, a saber:
Resolveu-se em primeiro lugar que as cercas que os portugueses haviam feito nestas terras, tanto em Potengi quanto em outros lugares, principalmente as próximas das casas de Francisco Mendes, de Estevão Machado e de Jan Jacobsen, inclusive as feitas de madeiras de carnaúbas, seriam todas demoli­das, para impedir a existência de fortificações nesta terra e o Regedor Antônio Paraopaba encarregou-se de fazer executar o trabalho com a sua gente.” 5   
Observe-se que o número de pessoas refugiadas na cerca, indicado por Bullestrate, é bem superior ao referido pelas fontes portuguesas (70). Mas este é apenas o número de homens, ao passo que a informação de Bullestrate inclui mulheres, crianças e escravos.
A presença em Potengi de alguns abrigos ou cercas onde os portugueses se refugiaram é assim confirmada por esta importante fonte holandesa, assim como os nomes dos dois Servos de Deus, Francisco Mendes e Estevão Machado que estão na lista dos propostos pela Postulação ao reconheci­mento do martírio.   
2. A cerca de Potengi é assediada 
Deixando Cunhaú após a horrível matança, Jacó Rabbi e seus ferozes aliados tapuias continuaram o seu itinerário de sangue por várias localidades da Paraíba e do Rio Grande, chegando em setembro à Casa Forte de João Lostau Navarro, um francês de Navarra, que possuía terras naquelas redondezas. De acordo com as pesquisas de Olavo Medeiros, a Casa Forte ficava situada perto da praia de Tabatinga, a poucos quilômetros de Natal6.
Nessa incursão, vários moradores foram mortos. O proprietário "por ser estrangeiro" foi levado preso para o For­te dos Reis Magos7. No Forte, Lostau Navarro encontrou­-se com outro prisioneiro português, Antônio Vilela Cid, acusado de cumplicidade na morte de um holandês no Ceará e de fazer parte de uma conspiração que visava a expulsão dos holandeses8,além do Pe. Ambrósio Francisco Ferro e de outros quatro moradores do Rio Grande, ali recebidos como hóspedes.
A etapa seguinte da fatídica viagem de Jacó Rabbi foi Potengi, onde os 70 moradores estavam refugiados na cerca de pau-a-pique. Acreditava ele tratar-se de uma tarefa fácil pois os moradores não tinham como resistir por longo tempo e logo se entregariam. Eles, porém, resistiram heroicamente com as poucas armas à sua disposição: 17 armas de fogo, algumas espingardas, dardos, mosquetes, espadas, zagunchos e paus tostados9
O “aleivoso Jacó” ainda tentou persuadi-los a entregar suas armas em troca de defesa e proteção, mas os moradores não se deixaram enganar:
“Os cercados lhe responderam que bem certificados estavam que ele era o mesmo que mandara matar os moradores de Cunhaú, estando inocentes, no tocante às armas, que as não haviam de entregar, porque as tinham para se defenderem de quem os quisesse matar, porque era a defensão natural, permitida pelas leis divina e humana.” 10
Foi quando o irritado Rabbi mandou vir do Forte Ceulen o reforço de duas peças de artilharia. Não havia mais como resistir; os bravos moradores se renderam:
“Os miseráveis, vendo a artilharia preparada e tanta resolução e eles sem nenhum remédio e sem pólvora, cercados naqueles campos de tantos holandeses, trataram da entrega, sendo os concertos que lhes prometeram de os guardar, e conservar com as vidas e fazendas, e para isso fizeram suas capitulações.” 11   
Depuseram as armas e entregaram cinco companheiros como reféns a serem conduzidos à Fortaleza dos Reis Magos: Estêvão Machado de Miranda, Francisco Mendes Pe­reira, Vicente de Souza Pereira, João da Silveira e Simão Correia12.Em troca, se lhes davam garantias de vida e passaportes em nome do príncipe de Orange. Os moradores, porém, não acreditavam nessas promessas: resignados, aguardavam a sorte, entregues nas mãos de Deus.   
3. O primeiro grupo de moradores é sacrificado 
Com a rendição da cerca e o envio dos reféns à Fortaleza dos Reis Magos, os moradores do Rio Grande ficaram em dois grupos: 12 pessoas na própria Fortaleza, incluindo os 5 hóspedes, 5 reféns e 2 prisioneiros, e o restante dos mora­dores na cerca de Potengi, sob custódia.
Os holandeses planejaram logo a eliminação do primeiro grupo, certamente por se tratar de pessoas de influência e de prestígio na cidade: o vigário, um escabino, um rico proprietário. O fato serviria de exemplo para os outros moradores.
Tudo começou com as ordens do Alto e Secreto Conselho do RecIfe para executar os rebeldes, e a vIsita do Conselheiro Adriaen van Bullestrate, um dos três que dirigiam os destinos do Brasil Holandês13. [...] Segundo os cronistas portugueses, Bullestrate teria chegado à Fortaleza dos Reis Magos, procedente do Recife, no dia 2 de outubro, véspera da execução dos mártires de Uruaçu14.
Na realidade, a fonte portuguesa mais antiga, a Relação de Lopo Curado Garro, [...] (fala) tão-somente da chegada nesta data de uma lancha trazendo as ordens do Supremo Conselho:
“Em dois do presente mês de outubro chegou uma lancha do Recife ao Rio Grande e conforme a execução que se fez, trouxe ordem para matar a todos os moradores de dez anos para cima como ao diante se verá.” 15
A reconstituição da seqüência dos fatos é a seguinte: as autoridades holandesas do Recife, temendo que se estivesse formando no Rio Grande uma verdadeira insurreição contra o domínio holandês e visando eliminar de uma vez os supostos chefes da rebelião, mandaram ordens para executar sumariamente todos os moradores. Os emissários chegaram ao Rio Grande em 2 de outubro numa lancha vinda do Recife: as ordens foram cumpridas logo no dia seguinte, 3 de outubro, com a horrível matança de Uruaçu.
O Conselheiro Bullestrate veio logo depois para inspecionar os trabalhos e verificar se as ordens tinham sido fiel­mente cumpridas.  Os 12 portugueses da Fortaleza foram embarcados em batéis e levados “rio acima” para o porto de Uruaçu16,lugar escolhido para a execução. Segundo as tradições locais, o lugar do martírio, conhecido hoje como porto do Flamengo, fica às margens do Jundiaí, vizinho à gamboa do Catolé
Chegando ao lugar “que para a navegação era porto, e para o martírio teatro”, na bela expressão de Frei Rafael de Jesus, tudo já tinha sido precedentemente preparado para aí se executar o massacre. Os índios já tinham sido avisados e lá estava o chefe potiguar Antônio Paraopaba com os seus comandados. Este chefe indígena,  educado na Holanda e, mais tarde, constituído pelos holandeses regedor dos índios da capitania do Rio Grande, tinha-se convertido à religião reformada e era um seu fanático defensor.  
Numa atitude ameaçadora e arrogante, Paraopaba“escaramuçando num cavalo”, estava à frente de um pelotão de mais de duzentos índios, bem armados, pertencentes aos dois grupos principais de índios da região: potiguares e tapuias.
Logo que desceram dos batéis, os flamengos ordenaram aos doze moradores vindos da Fortaleza que se despis­sem e se ajoelhassem. A um sinal dado por eles, os índios, que estavam emboscados, saíram dos matos e cercaram os indefesos colonos: 
“Saíram dos matos com gestos e gritos tão medonhos que causariam espanto ao insensível, quanto mais aos humanos, destinados para serem a presa d'aqueles tigres.” 17   
Teve início, então, a terrível carnificina, descrita com impressionante realismo e fortes tintas pelos cronistas portugueses. Nas descrições nota-se claramente o contraste entre a crueldade e a violência dos algozes, e a paciência, a resignação e o perdão das vítimas:
“Começaram... a dar tão atrozes tormentos aos homens, e tão desumanos, que já muitos dos que o padeciam, tomavam por mercê a morte; mas usaram os holandeses da última crueldade, dilatando a pena, e depois de cansados de darem tão aspérrimos tormentos aos homens, os entregaram aos Tapuias e Potiguares, que ainda vivos os foram fazendo em pedaços, e nos corpos fizeram tais anatomias que são incríveis; arrancando a uns os olhos e tirando a outros as línguas e cortando as partes vergonhosas e metendo-lhas nas bocas.” 18  
A Relação de Lopo Curado Garro acrescenta outros detalhes sangrentos:
“Logo chamaram aos brasilianos para os matar, o que se executou logo, fazendo nos corpos destes mártires tais anatomias, que são incríveis; e não contentes com elas, os ditos flamengos os ajudaram a matar, assim arrancando os olhos a uns, e tirando as línguas a outros, e cortando as partes vergonhosas, e metendo-lhas nas bocas.” 19  
Ainda não saciados com tamanha crueldade, entrega­ram aqueles corpos exangues aos índios para o rito final:
“Retiraram-se os holandeses, e entraram de refresco os Alarves, e não achando naqueles corpos parte que de novo pudessem atormentar, os foram cortando e dividindo, por to­das as juntas, até que neste martírio deram as almas a seu Criador, envoltas nas confissões da fé e nas galas da esperança. Horríveis à sua vista deixou a crueldade aqueles corpos, tanto que nem ainda tinham formas de troncos: a muitos abri­ram, para Lhes tirarem as entranhas, depois de lhes cortarem as cabeças, as pernas e os braços, porque o não parecessem; às cabeças tiraram as partes que lhes dão a forma, como olhos, línguas, narizes e orelhas; aos braços, as mãos; às mãos, os dedos; e porque tivesse a crueldade de todos parte no todo, não ficou gentio que não cortasse a sua parte.” 20 
A este espetáculo barbárico contrapõe-se a atitude serena e profundamente cristã dos moradores na hora suprema:
“No dia e na forma relatada, se embarcaram todos os mora­dores que alojava a Fortaleza. Navegaram até o porto de Hiomavaçu, onde os deitaram em terra, rodeados da Companhia holandesa, cujo capitão os mandou despir a todos, e que se pusessem de joelhos. Parece que com este mandato queria a tirania tirar à paciência o ser da virtude, e fez com que a obediência a duplicasse. Sem repugnância obedeceram todos, postos os olhos no céu, ao qual se ofereciam em sacrifício, certos de ser chegada sua última hora.” 21 “Pedindo todos a Deus que tivesse deles misericórdia, e Lhes perdoasse suas culpas e pecados, protestando que morriam firmes na santa fé católica crendo o que cria a santa madre Igreja de Roma.” 22  
Um elemento de fundamental importância para a caracterização deste massacre como verdadeiro martírio é a presença de um predicante da Igreja Reformada, chamado na ocasião para tentar demover os piedosos moradores de suas convicções religiosas, exortando-os a abjurar a sua fé. Os servos de Deus se mantiveram firmes:
“Os soldados de Cristo, com novo espírito, venceram a nova batalha, e com palavras e ações abominaram a cegueira he­rética e os condenados erros de suas seitas, confessando a gritos que morriam na pureza da fé católica, que crê e ensina a santa Igreja de Roma: e que de todo o coração detestavam todos os artículos que se desviavam de seus sagrados decretos, pela observância e confissão das quais estavam prestes a dar, uma e mil vidas, se as tiveram.” 23
Após o massacre, os corpos dos servos de Deus completamente mutilados ficaram espalhados por todo o campo, às margens do Uruaçu. 
4. O segundo grupo de moradores é sacrificado 
Enquanto o Pe. Ambrósio Francisco Ferro era sacrificado na companhia dos reféns e prisioneiros trazidos da Fortaleza dos Reis Magos, os outros moradores em número bem maior, aproximadamente 65 homens com suas mulheres e filhos, permaneciam trancafiados na cerca de Potengi, sob custódia de soldados holandeses. Quando tiveram de se render ao bando fortemente armado de Jacó Rabbi após uma heróica resistência, como foi narrado anteriormente, os moradores já não nutriam ilusões sobre a sua libertação e com espírito de resignação cristã, aguardavam o momento do martírio, que sentiam iminente.
O clima que reinava, então, na cerca era de intensa religiosidade. Segundo as narrações dos cronistas, faziam-se aí orações, procissões com o Santo Crucifixo, jejuns e penitências extraordinárias com ásperos e bem apertados cilícios, cordas e outros instrumentos de penitência. No momento em que seus corpos foram despojados de suas vestes para serem entregues aos algozes e também ao serem prepara­dos para a sepultura, visíveis eram os sinais desta austera penitência sobre os seus corpos24.Lopo Curado Garro descreve a cena com estas palavras:
“Houve também entre estes mártires grandes penitências, sem saberem uns dos outros, e ao dia que padeceram, jejuavam todos a pão, e água, assim os da fortaleza, como os da cerca, não sabendo uns dos outros, ao dia por a manhã pediram licença as mulheres para irem a enterrar os corpos mortos, e não lho consentiram; o que os escravos fizeram às escondi­das, e não se achou um palmo de pano para os amortalharem a nenhum, por deixarem as ditas mulheres em estado que fica­ram despidas de todo, achou-se que todos estes corpos estavam com cilícios, e os que os não tinham com cordas cingidas, e algumas tão metidas por a carne que mal apareciam. E sabe-­se que durante o tempo em que estavam cercados houve extraordinárias penitências, e até os meninos as faziam, sendo todos nus, e com cordas cingidas, e todos os dias se faziam procissões com um Santo Crucifixo, esperanças claras destas almas estarem gozando da bem-aventurança.” 25
Concluído o massacre do primeiro grupo, os chefes holandeses enviaram seus soldados à cerca, distante meia légua do porto de Uruaçu, para trazer os outros moradores. Estes, já sabendo que iriam ser levados para o suplício, não acreditaram nas promessas de salvo-conduto e liberdade que os emissários lhes traziam e, entre lágrimas, se despediam de suas mulheres e filhos. Na verdade, só os homens deve­riam ser levados para o lugar do martírio, mas sabemos pelas próprias crônicas que algumas mulheres, com os seus filhos, acompanharam os chefes de família e foram também sacrificadas.
Santiago descreve a emocionante despedida e a chega­da ao local do martírio com essas palavras:
“Despediram-se os miseráveis de suas mulheres e filhos com muitas lágrimas, pedindo-lhes com muita eficácia que, pois iam morrer por seu Deus e inocentes, que lhes encomendas­sem as almas a seu Criador, e a quem pelo caminho foram pedindo perdão de seus pecados, dando-lhes muitas graças e, mui conformes por morrerem daquela sorte, e, antes de serem chegados ao sítio, teatro de crueldade e tirania jamais vista, foram cercados dos índios, e em chegando viam os cadáveres de seus companheiros e vizinhos que ainda palpitavam com as feridas, com cuja vista não desmaiaram, antes deram a Deus muitas graças consolando-se uns aos outros, e protestando que morriam firmes na fé católica romana.”
No local da execução, ainda marcado pelo sangue dos companheiros recentemente sacrificados, estando os seus corpos e membros espalhados por toda a parte, repetiram­-se as cenas de tortura e de extrema barbárie com “as mais estranhas e horrendas crueldades e tiranias que jamais se usa­ram”. Cabeças cortadas, pernas e braços dilacerados; a muitos arrancaram os olhos e a língua; a alguns abriram o tronco, tirando-lhes o coração e as entranhas, cenas horríveis que até os cronistas sentem pejo ao narrá-las: “Os opróbrios que nestas mortes houve não são críveis, nem para contar-se sem faltar às leis da pudicícia, vergonha e modéstia.” 26  
5. Particularidades de algumas execuções 
Os cronistas não apresentam somente uma descrição genérica dos suplícios infligidos ao grupo de moradores, mas se detêm particularmente em alguns nomes, cujo martírio chamava a atenção pelo seu significado. Padre Ambrósio Ferro foi mais barbaramente atingido por causa de sua condição de sacerdote. Um dos cronistas diz:
“Ao Padre Vigário Ambrósio Francisco Ferro fizeram tais anatomias e coisas, estando ainda vivo, que tenho pejo de escrevê-las, e bem se pode coligir que fariam hereges a um sacerdote tão honrado e virtuoso, em ódio e opróbrio da religião católica romana.” 27 28   
Mateus Moreira é citado pelos três cronistas, embora com uma divergência de nome, Mateus ou Matias29.A descrição de sua morte é o ponto mais expressivo de toda a narrativa de Uruaçu e constitui um dos mais belos testemunhos de fé na Eucaristia, confessada na hora do martírio30. Os algozes arrancaram-lhe o coração pelas costas, e ele morreu exclamando: “Louvado seja o Santíssimo Sacramento.” 31. Frei Rafael de Jesus sublinha o significado profundamente religioso da profissão de fé, de Mateus, com este comentário:
“E seria permissão divina para que a um mesmo tempo visse o herege, para sua confusão, este divino mistério (o maior de nossa fé) no coração que tirava e na boca por onde saía.”
Antônio Baracho foi amarrado a uma árvore e os holandeses, estando ainda ele vivo, arrancaram-lhe a língua “pondo-lhe na boca em lugar dela as partes pudendas que lhe cortavam” 32. E não ficou só nisto: depois de açoitado, queimaram-no com ferro em brasa e, finalmente, tiraram pelas costas o coração, “desejosos sem dúvida de verem o tamanho de um coração em que coube o sofrimento de tantos martírios” 33.
Estêvão Machado de Miranda foi executado diante de uma filha de sete anos que suplicava, abraçada ao pai com grandes lamentações, que fosse poupada a vida de seu genitor. Depois do pai morto, cobriu-lhe o rosto com a saia, chorando e pedindo aos algozes que também a matassem34.Duas filhas de Estêvão Machado foram mortas junto com o pai. A uma terceira “que era uma galharda donzela”venderam-na aos índios por um cão de caça.
Uma filha de Antônio Vilela, o Moço, ainda criança pequena, teve morte desapiedada, “dando-lhe com a cabeça em um pau, a fizeram em dois pedaços” 35.
Uma filha de Francisco Dias, o Moço, foi morta e aberta em duas partes com um alfanje36.
Manuel Rodrigues Moura: seu martírio é citado por Lopo Curado Garro e Santiago37.
A esposa de Manuel Rodrigues Moura: depois do marido morto, cortaram-lhe as mãos e os pés; a mulher conseguiu sobreviver ainda três dias e “acabou dando alma ao Criador” 38.
João Martins e sete jovens, seus companheiros, foram os últimos a serem trucidados. Os próprios índios, lamentando executar oito jovens tão cheios de vida, mostraram sentimentos de compaixão e intercederam por eles junto aos holandeses. Estes não se comoveram e, na presença de João Martins, mataram a todos os seus companheiros, tentando desta maneira, demovê-lo de sua atitude. Ele respondeu com alegre rosto:
“Não me desampara Deus desta maneira, essas tomei sempre contra o tirano, e não contra minha Fé, Pátria e Rei. E suplicou que o matassem logo porque estava invejando as mortes de seus companheiros, e a glória que tinham recebido, e quando não o quisessem matar, ele mesmo os persuadiria a que o fizessem.”
Tais palavras provocaram ainda mais a ira dos fanáticos “que lhe fizeram em miúdas partes o corpo”

 MOMENTO DE REFLEXÃO

Continue lendo...




0 comentários:

Postar um comentário