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/ Ricardo Moraes
Análise
22:56
15.11.2020(atualizado 23:00 15.11.2020)
As eleições municipais não apontam uma vitória do
bolsonarismo nas urnas, embora, ao mesmo tempo, não seja possível dizer que ele
sai enfraquecido, disse especialista à Sputnik Brasil.
No sábado (14), o presidente Jair Bolsonaro
publicou em suas redes sociais os nomes de alguns candidatos que apoiava nas
eleições realizadas neste domingo (15). Um dia depois, porém, ele apagou o
post.
Ele citou os nomes de Celso Russomanno
(Republicanos), que disputa a prefeitura de São Paulo; do atual prefeito do Rio
de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos); Delegada Patrícia (Podemos), em
Recife; Bruno Engler (PRTB), em Belo Horizonte; Coronel Menezes (Patriota), em
Manaus; e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza.
Destes, apenas Crivella e Capitão Wagner foram para
o segundo turno. No Rio, com cerca de 30% das urnas apuradas, o ex-prefeito
Eduardo Paes (DEM) tem 37% dos votos e o atual alcaide, 21%. Em Fortaleza, com
quase 100% da apuração completada, Sarto (PDT) tem 36% dos votos, enquanto
Capitão Wagner surge com 33%.
'Vai muito mal' no Sudeste
Segundo Carlos Sávio Gomes Teixeira, professor do
Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF),
"sem dúvida essas eleições municipais não apontam uma vitória do
bolsonarismo".
"Nas
três principais capitais da região Sudeste, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo
Horizonte, onde está está concentrado a maioria do eleitorado, o bolsonarismo
vai muito mal. Em São Paulo o Russomanno teve um desempenho pífio, embora isso
não possa ser colocado totalmente na conta do Bolsonaro, pois o candidato já
teve resultados pífios outras vezes. Mas, dessa vez, se esperava que fosse para
o segundo turno. No Rio, o Crivella, com apoio da máquina, do Bolsonaro e da
Universal, conseguirá ir ao segundo turno, mas apontando uma derrota fragorosa
para o Paes no segundo. Em Belo Horizonte, o atual prefeito, Alexandre Kalil
[PDS], opositor de Bolsonaro, teve uma vitória avassaladora", disse o
especialista.
Em São Paulo, com 37% de urnas apuradas, o atual
prefeito, Bruno Covas (PSDB), tem 33%; Guilherme Boulos (Psol) aparece com 20%;
Márcio França (PSB) surge com 14%; e Russomanno é apenas o quarto, com 10%. Em
Belo Horizonte, com cerca de 85% dos votos apurados, Kalil tem 63% e Engler,
10%.
 | | Celso Russomanno |
|
|
© Folhapress
/ Adriano Vizoni
Apoiado
por Bolsonaro, Celso Russomanno (Republicanos) aparecia na liderança nas
primeiras pesquisas. Pouco a pouco, foi perdendo terreno. Ele ficou com cerca
de 10% dos votos em São Paulo
Eleições municipais x
presidenciais
Por outro lado, Sávio afirma que, pelas
características do pleito municipal, é difícil afirmar que o bolsonarismo sai
realmente enfraquecido.
"O bolsonarismo não sai fortalecido das
eleições, mas ele sai derrotado? Nesse ponto entra a questão da discussão da
relação entre as eleições municipais e presidenciais. É óbvio que há uma
relação, as municipais acontecem no meio do mandato presidencial, mas, essa
relação precisa ser qualificada, para entendermos a sutileza desse
relacionamento", disse o cientista político.
Para exemplificar, ele cita o exemplo de Niterói,
onde, com 56% dos votos apurados, Axel Grael (PDT) tem 61% e vencerá no
primeiro turno.
"Bolsonaro
tinha 33% de bom e ótimo na última pesquisa em Niterói. No entanto, o candidato
a prefeito do PDT, de oposição ao presidente, vencerá no primeiro turno. Como
se explica isso? Em boa medida, parte do eleitorado que avalia bem o Bolsonaro
na cidade, também avalia bem o governo local [o atual prefeito é Rodrigo Neves,
do PDT], a despeito da completa disparidade ideológica entre os dois, e faz uma
certa separação entre eleição municipal e nacional", disse o
especialista.
'Não é possível falar em derrota
de Bolsonaro'
O cientista político Paulo Baía, professor da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), concorda que as eleições
municipais têm características próprias e são "movidas pelas pautas das
cidades". Segundo ele, não é possível falar em "derrota de
Bolsonaro".
"Ele
não entrou nas campanhas, teve o nome usado por poucos candidatos. Efetivamente,
ele apoiou o Crivella e o Russomanno, que tem uma tradição de subir e cair.
Agora, no Rio, a presença do presidente ajudou o Crivella, que foi melhor do
que se esperava. Esperava-se em torno de 15% dos votos para ele, e Crivella
teve cerca de 20%. Credito ao Bolsonaro essa agregação de dois ou três por
cento", disse o especialista à Sputnik Brasil.
Para Baía, "o presidente não quis se expor em
uma eleição que ele sabe que não é nacionalizada em nenhuma capital, e não foi
em nenhuma das 95 cidades com mais de 200 mil habitantes".
'Dissipação da direita'
Já para o sociólogo Marcelo Seráfico, da
Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o "bolsonarismo parece sair
enfraquecido na maioria das cidades de médio e grande porte", mas é
"preciso saber o que se passa nas pequenas cidades para ver o impacto
geral desse enfraquecimento".
Segundo ele, "houve uma ampliação do leque de
candidatos que buscou se identificar com algumas bandeiras do bolsonarismo,
assumindo-se ou não bolsonaristas", o que, "combinado às condições
conjunturais de cada cidade, levou a uma espécie de dissipação do eleitorado de
direita".
"Ocorreu
na direita uma diversificação, multiplicação, que não se verifica na esquerda
nem no centro. Novos partidos, reivindicando pautas bolsonaristas, mas cujos
lastros, muito frequentemente, estão em velhos partidos. Talvez isso tenha
levado os eleitores a escolher a tradição, o conhecido, atenuando os efeitos do
oportunismo eleitoral de vários candidatos", disse à Sputnik Brasil.